Se você já passou tempo suficiente nas redes sociais, certamente se deparou com vídeos virais de estudantes universitários praticando atos no mínimo questionáveis. Eles picham prédios públicos com frases “revolucionárias”, atacam verbalmente quem discorda de suas ideias e, em casos extremos, partem para agressões físicas contra indivíduos de grupos ideológicos opostos. Mais do que episódios isolados de intolerância, esses comportamentos escancaram o surgimento de uma nova militância: a dos revolucionários de apartamento — jovens que gritam por justiça social e dizem lutar pelos oprimidos, mas fazem tudo isso com o conforto de quem nunca largou a segurança do próprio privilégio.
Mas afinal, quem são os Revolucionários de Apartamento? Eles já foram chamados de “wokeístas”, “Che Guevaras de apartamento” ou “Enzos do mimimi”. Apesar dos nomes caricatos, o perfil é consistente: jovens entre 20 e 30 anos, geralmente oriundos das classes mais altas da sociedade, que circulam entre universidades públicas, bares boêmios de qualidade duvidosa e jantares “intelectuais” promovidos pela elite cultural. São grupos que consomem ideias revolucionárias com a mesma seletividade com que monta sua dieta vegana e “anti-colonial” — a qual quase sempre servida pela mãe ou pela empregada doméstica às três da tarde. No mesmo tempo em que condenam o “sistema opressor burguês”, continuam a desfrutar de todas as suas regalias.
Essa aparente contradição é maquiada por uma estratégia retórica eficaz: o auto-flagelo performático. Começam seus discursos reconhecendo seu privilégio e seu “lugar de fala”, para em seguida se posicionarem como vítimas simbólicas de uma sociedade cruel, ainda que sejam beneficiários diretos dela. Assim, encenam a opressão sem abdicar da estrutura que os privilegia. Afinal, Frequentar aulas em tempo integral, virar noites em barzinhos em plena terça-feira ou fazer parte de coletivos que organizam viagens “antifascistas” para congressos em capitais distantes é algo que só a elite pode bancar no Brasil atual.
Ainda assim, essa juventude se diz representante legítima dos marginalizados. Não por viver a mesma realidade, mas por supostamente entender melhor o que é ser oprimido do que os próprios oprimidos. É a velha lógica paternalista travestida de progressismo moralista. Machado de Assis, em seu conto “O Segredo do Gonzo”, retratou com brilhantismo o conflito entre o ser e o parecer — e como, muitas vezes, o parecer é socialmente mais eficaz. No caso dos revolucionários de apartamento,
parecer justo, ético, militante e radical rende mais curtidas, palmas e prestígio do que realmente viver os riscos e as dores da luta social autêntica. Eles não precisam abrir mão de seus privilégios, focam apenas para performar que sentem culpa por tê-los. E isso basta para que sejam legitimados por seus pares.
A escritora Madeleine Lacksko, no livro Cancelando o Cancelamento, denuncia um mecanismo perverso: a apropriação da moralidade como arma de perseguição. Os novos militantes não argumentam, cancelam. Justificam ataques e linchamentos virtuais ao desumanizar seus alvos com rótulos genéricos como “fascista, machista e racista” para então promover a “justiça social”, mesmo quando seus alvos são na verdade apenas pessoas comuns com opiniões divergentes.
E não para por aí. Estes, justificam a censura, o silenciamento e até a agressão física como se fossem legítimos instrumentos de correção moral. Os mesmos que defendem “a democracia”; “o fim da violência” e a “proteção das minorias” são os primeiros a bater. Basta que o alvo pense diferente. Essa contradição teórico-prática é uma das marcas mais evidentes do revolucionarismo de apartamento. A mesma militância que condena a violência contra uma mulher vítima de 60 socos é a que celebra quando mulheres são agredidas no Conune por pertencerem a grupos liberais. A mesma militância que não admitiu comemorações pela morte do assassino Lázaro Barbosa foi a mesma que fez piada nas redes com o falecimento do opositor ideológico Olavo de Carvalho.
O problema aqui não está apenas na duplicidade moral, mas na total inviabilidade de qualquer debate público saudável. Esses “revolucionários de apartamento” não são apenas incoerentes. Eles são um problema real para a sociedade. Ao normalizar a agressão em nome do bem, colocam em risco qualquer possibilidade de embate democrático. Ao performar o papel de vítimas enquanto atacam, ofuscam causas reais, prejudicando justamente os grupos que dizem proteger.
No fim, não querem transformar o sistema. Querem um sistema que continue lhes servindo, mas agora sob uma nova narrativa, onde eles são os heróis, os justos e os virtuosos. Quando no fundo não passam de opressores fantasiados de oprimidos. Assim, podemos concluir o grande perigo dessa nova geração de militantes contraditórios: Quando a régua moral é moldada conforme a utilidade política do momento, o que sobra é apenas intolerância, arrogância e radicalismo performático.