Primeiro saiu o diretor de Política Monetária do BACEN, Mario Torós, depois o ministro Mantega anunciou mais uma taxação, de 1,5% para o IOF, agora sobre as novas emissões de DRs. Foi, realmente, uma semana agitada (dias 16 a 19), com o mercado navegando em mares revoltos, sobre o signo da volatilidade. Para piorar os ânimos, voltaram a ganhar força comentários a respeito da formação de bolhas nos vários mercados de ativos, com destaque para commodities, moedas e ações.
Sobre a saída de Mario Torós, sem maiores surpresas, até porque a entrevista dada ao jornal Valor nada mais foi do que um balanço das suas realizações na gestão das operações monetário-cambiais e na administração das reservas cambiais. Sobre isto, não dá para deixar de louvar suas ações, até porque as reservas cambiais atuais, em torno de US$ 235 bilhões, são fruto destas operações de compra no mercado cambial. O que causou certo desconforto nos mercados, no entanto, foi a constatação de uma total falta de coordenação, ou harmonia, nas ações do BACEN e da Fazenda.
De um lado, a autoridade monetária vem tentando monitorar os gastos do setor privado, através de uma política de juros e de crédito cautelosa, o que não vem sendo realizado pela Fazenda, com os gastos públicos em ritmo célere de expansão. Com estes em desalinho, o BACEN não vem tendo outra escolha a não ser manter uma taxa de juros real anual em torno de 4% – 8,75% nominais -, até porque nos embates do mercado de títulos públicos os players não aceitariam prêmio muito mais baixo.
Isto acaba nos levando a outro tema desta semana, a taxação do IOF sobre as operações em bolsa e renda fixa, e agora nas emissões de DRs. Mesmo depois de adotadas as medidas iniciais, no entanto, o dólar seguiu em depreciação, ameaçando romper o “piso psicológico” de R$ 1,70. Muitos argumentariam que o volume de ingressos líquidos de dólares deu uma trégua nestas semanas pós-IOF, mas estes continuaram abundantes, jogando a moeda ainda mais para baixo. Como evitar isto?
Claro que a taxação do IOF acabou se mostrando providencial, já que o rompimento da cotação em direção dos R$ 1,60 já era fato irreversível na nossa visão, sendo, portanto, uma medida amortecedora, visando reduzir a velocidade de apreciação, mas terá sido suficiente? Como vem sendo escrito neste espaço, a apreciação do real vem ocorrendo por uma conjunção de fatores, nem sempre correlacionados, como as fraquezas estruturais da economia norte-americana, o que jogou o Fed Funds a zero; as boas perspectivas da economia brasileira, tendo preservado os principais pilares da sua política econômica; a dificuldade dos países ricos em desmontar suas políticas anticíclicas e o chamado carry trade, em que os investidores estrangeiros vêm aproveitando para aplicar seus recursos nos mercados emergentes, como o Brasil, dadas suas perspectivas favoráveis, mas também sua elevada taxa de juros doméstica.
Sendo assim, o volume de recursos ingressantes no Brasil acabou sofrendo um impacto, como observamos no gráfico ao fim, mas este não se deu apenas pelo IOF, mas também pelas incertezas de que novas medidas de controle de ingresso de capitais podem ser adotadas. Isto acabou tornando o investidor mais arisco na alocação dos seus recursos no mercado brasileiro.
Dito tudo isto, nos transportamos para o tema desta semana, sobre a formação de bolhas nos mercados de ativos. Com o juro zerado nas principais economias do globo, a valorização dos ativos vem ocorrendo num ritmo muito forte, o que vem colocando esta preocupação na ordem do dia.
Por definição, a formação das bolhas se justifica pelo “desvio no preço justo”, um exagero por parte dos investidores, ou mesmo fruto da irracionalidade e ganância destes, a especulação excessiva, fruto, muitas vezes, de uma regulação frouxa ou frágil.
Várias foram as bolhas formadas no século XX, como a que originou o crash de Wall Street em 1929, com a excessiva valorização das ações; a gerada no Japão na segunda metade dos anos 80, formada pelos excessos nos mercados de ações e de imóveis; as várias ocorridas nos mercados imobiliários nos países nórdicos, a dos excessos dos mercados do Sudeste Asiático nos anos 90, o estouro das empresas “ponto.com” na virada do século e, mas recentemente, a do mercado subprime nos EUA.
Todas estas bolhas, no entanto, foram fruto de uma exuberância irracional dos mercados, que perdurou por alguns anos, ao contrário do cenário atual, reflexo da saída destes países de um surto recessivo, gerado pela “seca do crédito” ao fim de 2008. Sendo assim, o que diferenciaria a situação atual das tantas do passado seria pelo fato de que ainda não deu tempo suficiente para que uma nova crise estivesse sendo gestada, reflexo do estouro de uma bolha no mercado de ativos.
No entanto, não resta dúvida que alguma coisa terá que ser feita ao longo de 2010 para evitar este desenlace. O desmonte das operações de afrouxamento monetário e estímulo fiscal tem que estar na agenda dos países ricos. Claro que este processo será lento e cauteloso, mas é inevitável. Será realizado a partir do momento que estas economias começarem a mostrar musculatura própria para saírem da prostração econômica, com o crédito retornando, assim como a oferta de emprego, a geração de renda e o reaquecimento da atividade.
Em síntese, talvez haja a formação de bolhas, mas estas ainda podem ser evitáveis, desde que as operações de desmonte das medidas anticíclicas sejam iniciadas, em paralelo à retomada consistente destas economias.
No Brasil, pelo lado fiscal não se visualiza nenhum desmonte dos excessos de gastos, ainda mais com o ano eleitoral se aproximando, mas pelo lado do BACEN estas operações já começam a ser pensadas, como a elevação do juro ao longo de 2010, com o mercado futuro sinalizando taxas de juros acima de 10,5% ao fim do ano, assim como o retorno do compulsório. Ou seja, observamos a autoridade monetária tendo que compensar a falta de apetite da Fazenda por ajustes. A única mudança a ser realizada por este lado será a retirada de uma medida que deu oxigênio ao setor produtivo, qual seja a redução do IPI para a “linha branca”. Afinal de contas, será preciso uma arrecadação melhor em 2010, diante de uma aceleração das despesas de custeio, na sua maioria, permanentes e de difícil redução.
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