Em época de Copa do Mundo é quase impossível não se deixar tomar pelo espírito festivo da competição. Quem vê o tamanho gigantesco do evento raramente lembra de como no começo o esporte era praticado sob condições precárias. Para se ter uma idéia, a seleção Brasileira que competiu em 1934 na copa da Itália fez a sua preparação física a bordo do navio que os transportava. O futebol de então, no Brasil, era praticado, em sua maior parte, por atletas amadores ou que se dedicavam parcialmente ao esporte. Na década de 40 o profissionalismo foi se tornando a regra, e os jogadores de futebol passaram a ser profissionais como outros quaisquer que ganhavam seu salário em troca do seu tempo de trabalho, certo? Errado. Na Europa e no Brasil vigorava um dispositivo que vinculava os jogadores aos clubes, mesmo que não houvesse mais contrato em vigor: o passe. O passe era a garantia de que o investimento feito pelos clubes não seria perdido por causa da insatisfação dos jogadores. Para estes últimos era a garantia de só jogar onde houvesse anuência do clube anterior. O passe durou muito tempo, até que em 1995, Jean-Marc Bosman, um jogador belga de pouca expressão, conseguiu através da Corte Européia, o direito de jogar no clube que lhe pagasse melhor. Neste caso, ele pretendia sair do F.C Liége que decidira cortar seu salário em 60% e se transferir para um clube francês. A chamada Lei Bosman revolucionou o mundo do futebol ao permitir que as condições de trabalho dos jogadores fosse um acordo entre eles e os seus empregadores, sem regalias concedidas pelo governo a nenhuma das partes (no caso do passe aos clubes). A conseqüência disso tudo foi que os jogadores passaram a ganhar mais e os clubes mais competentes na sua gestão puderam competir pelos melhores prestadores de serviço. Com a flexibilização das relações de trabalho no mundo do futebol, muitos saíram beneficiados. Os clubes se tornaram mais profissionais, os jogadores passaram a ganhar melhores salários e os torcedores passaram a assistir a melhores campeonatos. O exemplo do futebol é emblemático de como quando os governos param de interferir nas relações de trabalho a atividade se torna mais eficiente e lucrativa e tanto os patrões quanto os empregados mais competentes passam a ganhar mais com isso.
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