O Brasil enfrenta o desafio histórico de se colocar entre as maiores economias do mundo nesta década. Para ser bem-sucedido, terá de recuperar uma dinâmica própria de crescimento, baseada em seu mercado interno de consumo de massas, ou seja, nos brasileiros que conseguem mais renda e querem mais produtos e serviços. Isso porque são cada vez mais preocupantes as indicações de que as economias avançadas estarão, no futuro próximo, em meio a crises estruturais de lenta resolução.
Para Niall Ferguson, autor de “A ascensão do dinheiro: a história financeira do mundo” (2008), seria um grave erro presumir que as sombras da crise da dívida soberana atingirão apenas as economias mais vulneráveis da Zona do Euro, como Portugal, Espanha, Itália e Grécia. “Estamos diante de mais do que um problema mediterrâneo. Trata-se de uma crise fiscal do Ocidente. Que, apropriadamente, começou na Grécia, o berço da civilização ocidental”, afirma o professor de história econômica em recente artigo no jornal “Financial Times”.
Para Kenneth Rogoff, autor de “Desta vez é diferente: oito séculos de insensatez financeira” (2009), a atual crise financeira repete um padrão histórico – para salvar os bancos, os governos acabam se endividando excessivamente. O aumento da dívida pública infla o déficit fiscal, eleva as taxas de juros, derruba o crescimento e a arrecadação, um círculo vicioso bastante praticado no Brasil. “Os países avançados terão crescimento muito baixo por longo tempo, em consequência do endividamento excessivo do setor público”, afirma o ex-economista- -chefe do Fundo Monetário Internacional.
Nesse universo econômico em contração, em meio à crise fiscal do Ocidente, à guerra mundial por empregos e à ameaça de desindustrialização que vem da Ásia em geral – e da China em particular –, serão testados os alicerces da Grande Sociedade Aberta: democracias liberais, economias de mercado e políticas públicas do estado de bem-estar social.
Uma interpretação errada da crise pode nos afastar dos
mercados de trabalho flexíveis e inclusivos
De um lado, os excessos dos bancos centrais e dos financistas anglo-saxões abalaram a fé nos mercados. De outro, os excessos da social–democracia europeia abalaram a fé nos governos. Mas o erro não está na Grande Sociedade Aberta, e sim nos excessos trazidos por seu próprio sucesso ao longo das últimas duas décadas. Os americanos tanto inovaram em matéria financeira que passaram a acreditar no enriquecimento sem trabalho nem poupança. E os europeus tanto estenderam as redes de proteção social que prometeram benefícios que vão muito além de sua produtividade.
A descrença nas economias de mercado é particularmente desastrosa para os países emergentes. Seria trágico que uma interpretação equivocada sobre as causas da crise atual nos afastasse dos mercados de trabalho flexíveis e inclusivos, no exato momento em que neles mergulham 3,5 bilhões de eurasianos – com destaque para 1,3 bilhão de chineses – para sair da miséria.
O desempenho econômico e social do Chile é um testemunho do que a democracia, os mercados e as políticas públicas adequadas podem fazer por um povo. E a Venezuela, no outro extremo, é um exemplo do que pode ocorrer quando não se praticam esses princípios da modernidade ocidental.
O principal mecanismo de inclusão social dos trabalhadores eurasianos tem sido a geração de empregos pelo setor privado. Mas, no Brasil, as empresas e essa extraordinária dinâmica recebem da classe política apenas desconsideração, na forma de legislação trabalhista obsoleta, encargos previdenciários exagerados, carga tributária pesada e juros dilacerantes.
Os encargos trabalhistas e previdenciários em excesso derrubam os salários dos trabalhadores e aumentam os custos das empresas. São obstáculos à criação de postos de trabalho pelas empresas privadas. A formação de um ambiente econômico propício, com a criação de milhões de empregos como base de um mercado interno de dimensões continentais, é o grande desafio para a recuperação de uma dinâmica de crescimento própria em meio à crise global.
Fonte: Revista “Época” – 22/02/10
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