O Globo, 26 de fevereiro de 2007
A economia globalizada, esse extraordinário organismo de crescente complexidade, é um universo em permanente expansão. Os colossais choques sistêmicos característicos de sua atual etapa neste início do século XXI são a maior disponibilidade de capitais financeiros, a abrupta elevação da oferta de trabalho e as inovações tecnológicas recorrentes, que tornaram relativamente escasso o empreendedorismo, o capital organizacional. As empresas existentes, globalmente visíveis nos mercados acionários, são doses concentradas desse escasso empreendedorismo e capital organizacional. São os veículos para a apropriação de lucros neste novo ambiente em formação.
Estes são os fundamentos, os motivos estruturais pelos quais as bolsas de valores têm subido bastante, por muito tempo e em todo o mundo. A alta ininterrupta do valor das empresas representa a expectativa de crescimento contínuo dos lucros futuros. Mas há também fatores conjunturais – porém de enorme impacto – responsáveis pela onda de liquidez que encharcou o mundo. O que explica a ameaça de uma correção nos mercados acionários pela remoção dessa extraordinária liquidez global, em campanhas de elevação dos juros pelos bancos centrais dos Estados Unidos, da Europa e do Japão.
Para o Brasil, em meio ao favorável ambiente externo, a alta das bolsas poderia sinalizar o início de um longo ciclo de crescimento, se o governo destravasse, com as reformas, suas armadilhas de caça aos empreendedores. Pois, quando o valor das fábricas existentes – embutido na avaliação das empresas em bolsas – está bem acima do custo de construção de novas fábricas, o prêmio ao empreendedorismo dispara encomendas para a construção dessas novas fábricas.
“A taxa de investimento – o ritmo em que os empreendedores desejam ampliar o estoque de capital instalado – depende da relação entre o valor atribuído ao capital existente e seu custo de reposição ou reprodução”, isto é, o custo de fabricação de novas instalações, segundo James Tobin, prêmio Nobel de Economia, em seu clássico “Uma formulação de equilíbrio geral para a teoria monetária” (1969).
O fenômeno é particularmente agudo no Brasil. Nos últimos 20 anos, os descaminhos financeiros da Nova República e a armadilha social-democrata de baixo crescimento foram letais para os empreendedores. Das 1.300 empresas listadas em bolsa no início dos anos 80, pouco mais de 300 sobreviveram. Mas agora, com a morte da inflação, a queda dos juros, o acúmulo de reservas e o câmbio flutuante, reduziu-se substancialmente o grau de incerteza dos empreendimentos no país.
“Sob o sistema de livre empresa, os homens de negócio se especializam na direção dos empreendimentos econômicos. Arregimentam uma combinação experimental de recursos – capital, trabalho, tecnologia, terra, recursos naturais -, garantindo uma renda contratual a cada um deles e assumindo os riscos do negócio. O lucro, se existir, é um retorno aos riscos incorridos”, afirma Frank Knight, em “Risco, incerteza e lucro” (1921). Por isso há uma enxurrada de novos lançamentos no mercado acionário, papéis de empresas marcando a chegada de empreendedores em resposta ao chamado das bolsas.
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