O ano de 2009 entrará para a história. Começou sob a ameaça de nova depressão econômica, trauma por que a economia mundial não passa desde a década de 1930. Como então, os bancos estiveram no epicentro da crise, e no início do ano parecia que muitos deles poderiam seguir o caminho da Lehman Brothers ou ser estatizados, como de fato ocorreu com alguns deles. Esse cenário se refletiu em forte queda nas bolsas, um aumento recorde nos spreads de risco em operações de crédito, inclusive nos empréstimos interbancários, e uma fuga para os títulos públicos.
Tempos incomuns exigiram respostas igualmente atípicas, e 2009 foi pródigo nesse tipo de políticas. O setor público reagiu à queda na demanda e no crédito privados, expandindo suas atividades com pacotes de gastos, isenções tributárias e farta oferta de crédito, inclusive por meio dos bancos centrais, como nos EUA, área do euro e Reino Unido. Junto com o Japão, esses países também passaram o ano com taxas de juros próximas a zero. Na China, o governo não só adotou um grande pacote tributário, como expandiu o crédito numa escala nunca antes registrada.
O mundo termina o ano com o PIB em alta, na margem, mas o prejuízo acumulado foi maior do que se temia. Em janeiro, o FMI previa que o mundo cresceria 0,5% em 2009, contra 3% em 2008 e 5,2% em 2007, com queda de 2,8% no comércio mundial. Os países ricos teriam uma contração de 2%, enquanto os em desenvolvimento cresceriam 3,3%, liderados por China (6,7%) e Índia (5,1%). Já no seu mais recente Perspectivas da Economia Mundial, o Fundo prevê que este ano o PIB mundial caia 1,1% e o comércio internacional contraia 11,1%. Tanto os países desenvolvidos como aqueles em desenvolvimento devem ter um desempenho mais fraco do que antes projetado: queda de 3,4% e alta de 1,7%, respectivamente.
Os “anabolizantes” injetados pelas políticas monetária e fiscal nas maiores economias do planeta devem ter efeito mais claro em 2010, quando o mundo deve crescer 3,1%, de acordo com o FMI. Essa melhora ocorrerá tanto nos países desenvolvidos como nos em desenvolvimento, mas a diferença entre eles subsistirá: enquanto o PIB do primeiro conjunto de países deve subir 1,3%, o do segundo aumentará 5,1%, mais uma vez sob a liderança da China, para a qual o FMI estima crescimento de 9%.
O principal desafio para os governos será retroceder nas políticas excepcionais adotadas este ano sem comprometer essa incipiente retomada do crescimento global. Os esquemas de criação de crédito pelos bancos centrais devem ser os primeiros a terem sua escala reduzida. O ritmo em que isso ocorrerá pode fazer grande diferença. De um lado, há o receio de que elas criem novas bolhas, conforme a liquidez assim gerada flua para ativos de risco com retorno superior aos magros rendimentos dos títulos públicos. Os próprios bancos centrais têm alertado para o risco de os bancos se viciarem na ajuda pública. De outro lado, há a preocupação com a contração do crédito, especialmente para famílias e pequenas empresas, que não conseguem captar recursos no mercado de capitais.
A lógica indica que a segunda prioridade deveria ser o fim dos programas de estímulo fiscal, de forma a impedir uma deterioração ainda maior da já precária situação das contas públicas em alguns países da área do euro, assim como do Japão, do Reino Unido e dos EUA. A história ensina, porém, que medidas de expansão fiscal são fáceis de adotar, mas difíceis de eliminar. Com isso, é provável que se observe alguma combinação de juros básicos mais altos com uma maior disciplina de gastos, mas que ainda no fim de 2010 o mundo esteja convivendo com políticas públicas muito estimulativas.
Por fim, 2010 deve ser um ano com taxas de desemprego ainda altas e com volatilidade acima do normal no mercado financeiro. Com o PIB crescendo abaixo do potencial, a geração de empregos será insuficiente para absorver todos os novos entrantes no mercado de trabalho. Quanto aos ativos, apesar de toda a queda de preços no primeiro trimestre deste ano, esses se recuperaram bem e antes mesmo que os fundamentos econômicos o fizessem em igual escala. Isso ocorreu na expectativa de que 2010 seja, de fato, um ano bem melhor na economia. Mas as dúvidas sobre a saúde das empresas, em especial dos bancos, e, crescentemente, das contas públicas ainda são muitas. Até que se comprove que a economia real está de fato melhorando, sempre pode ocorrer de os investidores apostarem em cenários menos otimistas que o traçado acima.
Fonte: Jornal Correio Braziliense, 25 de Novembro
Sem Comentários! Seja o primeiro.