*Felipe Modesto
Caminhe por qualquer uma das grandes metrópoles brasileiras e você sentirá imediatamente: o calor sufocante refletido pelo asfalto, o ruído ensurdecedor do trânsito, possivelmente a monotonia das fachadas, muros altos, o cheiro de escapamento misturado no ar. Há algo profundamente errado com nossas cidades, mas raramente sabemos nomear o problema. Não se trata apenas de congestionamento ou criminalidade. O mal-estar urbano contemporâneo tem raízes mais sutis: esquecemos que as cidades são, antes de tudo, ambientes sensoriais coletivos.
A política sensorial — o conjunto de decisões sobre como os ambientes urbanos devem afetar nossos sentidos — determina silenciosamente a qualidade de nossas vidas. Às vezes ela é feita propositalmente, outras vezes as próprias pessoas modificam a própria atmosfera. Cada textura de calçada, cada eco de uma viela, cada sombra projetada por uma árvore, constitui nossa experiência cotidiana de formas que escapam à consciência, mas não ao corpo. E é justamente por operar nesse nível de consciência “pré-reflexiva” – para usar um belo termo de Merleau-Ponty – que a dimensão sensorial das cidades merece atenção política urgente. Ela atinge nossa mente, decisões e raciocínios sem nem percebemos.
Ao se deparar com esse fenômeno, o arquiteto e professor Juhani Uolevi Pallasmaa, da Universidade de Tecnologia de Helsinki, desenvolve sua tese sobre a arquitetura e urbanismo sensoriais. Para o professor, conforme declaração no clássico livreto Olhos da pele: a arquitetura e os sentidos, “a arquitetura, assim como o mundo inteiro construído pelo homem por meio de suas cidades, casas, ferramentas e objetos, tem seu correspondente e sua base mentais. À medida que construímos nosso mundo autônomo, construímos projeções e metáforas de nossas próprias paisagens mentais. Moramos na paisagem e a paisagem mora dentro de nós. Uma paisagem ferida pela intervenção humana, a fragmentação da paisagem urbana, bem como pelas edificações insensíveis, são evidências externas e materializadas de uma alienação e fragmentação do espaço interno humano”.
Isso significa que as formas, cores, texturas, sons, símbolos, são tecidos diariamente pelos habitantes. Logo, se os habitantes externalizam suas projeções negativas, é difícil prever que eles irão viver em um ambiente positivo. E, consequentemente, a atmosfera depreciada irá influenciar as próprias pessoas que a modificam cotidianamente. “A feiura na arquitetura ou a falsidade existencial podem nos fazer sentir a alienação e o empobrecimento do senso de identidade própria e, por fim, nos fazer adoecer mental e somaticamente” assevera o autor finlandês em seu livro As mãos inteligentes: a sabedoria existencial e corporalizada na arquitetura.
Ora, os resultados de abolir a sensorialidade do corpo também são os de eliminar a sensualidade da vida. E com isso não ocorre apenas a perda da dimensão emocional das belas artes, mas também corrobora no atrofiamento da criatividade e imaginação. “A arquitetura não apenas responde às necessidades sociais e intelectuais funcionais e conscientes dos moradores urbanos; ela também deve lembrar o caçador e agricultor primitivo escondido em nossos corpos. Nossas sensações de conforto, proteção e lar estão enraizadas nas experiências primitivas de incontáveis gerações”, confessa o professor no primeiro livro citado. Por isso, a função essencial da arquitetura não é de meramente proteger as pessoas das ameaças naturais, mas de conectar as pessoas com suas próprias memórias, sonhos, desejos e mentes.
Contudo, justamente pelo seu poder atmosférico, vale ressaltar como a arquitetura dos espaços merece atenção. Em sintonia com esse pensamento, no livro “Architectural atmospheres: on the experience and politics of architecture” o professor de sociologia da Universidade de Copenhagen, Christian Borch, também tem essa preocupação: “[a política sensorial seriam] as formas nas quais as atmosferas são projetadas em uma maneira multissensorial com a intenção de governar ou induzir particulares comportamentos. Além disso, tal projeto multissensorial deveria atrair atenção crítica visto que a modelagem de comportamentos através de, vamos dizer, manipulação olfatória, na maioria das vezes ocorre em um nível inconsciente”. Isto é, os desejos e comportamentos das pessoas podem ser gerenciados e induzidos por determinadas decisões de configuração do ambiente.
Esse fenômeno, portanto, é visto de duas maneiras: uma positiva e outra negativa. Por um lado, é uma lembrança de que a “ação humana” é produtiva não somente nos meios físicos, mas também nas camadas mais profundas do nosso ser. Ou seja, a busca pela felicidade não pode ser tão simplesmente sob a via econômica, mas também pela cultura. Por outro lado, essa perspectiva de análise revela como nós somos influenciados diariamente pelo que “consumimos” do mundo, e como nós podemos ocasionalmente tomarmos decisões irrefletidas por tais motivos.
Conseguintemente, desnuda-se a importância das atmosferas. Ao criarmos ambientes que nutrem os sentidos e despertem a imaginação e o livre pensamento, estamos contribuindo para a formação de cidadãos mais criativos, abertos, seguros e capazes de construir relações mais ricas e perduráveis. Esta é a real herança que a integração de profissionais da área com o morador comum pode deixar para as futuras gerações: cidades que não apenas “funcionam”, mas que inspiram e enobrecem aqueles que as habitam.