O crescimento do PIB do primeiro trimestre superou todas as expectativas. Com expansão de 9% contra o mesmo trimestre do ano passado e 2,7% contra o anterior, o crescimento da economia brasileira já pode ser comparado ao de alguns parceiros dos BRICs, como China e Índia.
Na verdade, este desempenho deste início de 2010 só foi superado pelo da China. Analisando um grupo de países, o PIB brasileiro do primeiro trimestre, contra o quarto de 2009, superou o Canadá, que cresceu 1,5%, a Suécia, crescendo 1,4%, o Japão 1,2%, Portugal 1,0%, Estados Unidos 0,8%, Itália 0,5%, Reino Unido 0,3%, Alemanha 0,2%, e União Europeia e zona do euro 0,2%.
Este crescimento vem sendo relativamente equilibrado, com ótimo desempenho dos investimentos, e também impulsionado pelo crédito e a recuperação da renda real. Contra o trimestre anterior, a chamada “Formação Bruta do Capital Fixo” avançou 7,4% e o consumo 1,5%.
Por segmentos, o destaque fica com a Indústria, avançando 4,2% contra o trimestre anterior, chegando a 14,6% em relação ao mesmo período do ano passado. Neste caso, por outro lado, é preciso destacar uma base de comparação muito baixa, já que a indústria nacional mergulhou 7% no ano passado, impactada pela crise e a seca de crédito. O mesmo ocorreu com os investimentos, tendo recuado 16% no segundo trimestre do ano passado, mas agora crescendo 26%.
Façamos, então, um balanço do desempenho do PIB neste primeiro trimestre.
Ø No desempenho do PIB do primeiro trimestre, por segmentos, o PIB Industrial avançou 4,2%, o Agropecuário cresceu 2,7% e os Serviços 1,9%. Em quatro trimestres, o crescimento foi de 2,4%, com Serviços crescendo 3,6%, o PIB Industrial ficando estável e o Agropecuário recuando 3,3%. Isto se justifica, pois esta base de comparação arrastou o fraco desempenho da virada de 2008 para 2009, quando a economia nacional praticamente parou. No desempenho trimestral, a taxa anualizada do PIB foi a 11,2%, com a taxa de investimentos puxando este crescimento, avançando 26% e passando de 16,3% no primeiro trimestre do ano passado para 18% neste trimestre.
Ø No bom desempenho do PIB Industrial (14,6% contra o mesmo trimestre de 2009), retornando ao patamar pré-crise, destaque para as indústrias de transformação (17,2%), construção civil (14,9%), extrativa mineral (13,6%) e energia elétrica e saneamento (8,1%). Sendo assim, o setor industrial teve como setores líderes os segmentos de máquinas e equipamentos, metalurgia e siderurgia, indústria automobilística, têxtil e produtos químicos e plásticos.
Ø Pelo lado da demanda agregada, o consumo das famílias avançou 1,5% contra o quarto trimestre e os investimentos avançaram 7,4%. A expansão do consumo doméstico se deu pela expansão da massa salarial (0,3%) e as operações de crédito (18,6%). Para os próximos trimestres, no entanto, é prevista uma acomodação do consumo, com o desmonte das medidas de estímulo monetário e fiscal e o início do ciclo de aperto monetário.
Ø Pelo lado do setor agropecuário, o crescimento de 5,1% contra o trimestre anterior se deu sobre uma base de comparação muito baixa, já que no mesmo período este segmento recuou 2,8%. O destaque ficou com as colheitas de soja, algodão e milho. Já o PIB de Serviços avançou 5,9% contra o trimestre anterior, indo a 15,2% sobre o mesmo período do ano passado. Por fim, o setor externo contribuiu negativamente, já que as importações avançaram 13,1% e as exportações 1,7% contra o trimestre anterior.
Ø Pelo lado da taxa de investimentos, 18% do PIB, devemos destacar a taxa de poupança num patamar ainda baixo, a 15,8% do PIB, o que se justifica pelo crescente déficit externo do País. Na ausência de poupança doméstica suficiente, o País vem recorrendo ao endividamento externo. Isto se explica pelo déficit nominal em torno de 3% do PIB em 12 meses, com um grande volume de despesas de custeio e o impacto dos encargos financeiros, o que vem reduzindo a capacidade do País poupar. Neste caso, preocupa o ainda baixo volume de investimentos públicos, em torno de 2% do PIB, muito mais importante do que o ritmo das despesas para a manutenção da máquina pública, com destaque para Encargos e Pessoal, em torno de 5% do PIB. Já pelo lado do consumo privado, o que se tem é uma economia turbinada pelo crédito pessoal para a aquisição de bens duráveis, ainda em níveis toleráveis de inadimplência, em torno de 4%, já que o prazo de financiamento vem se mantendo alongado, o que vem tornando possíveis aos parcelamentos caberem nos orçamentos familiares.
Ø É preciso destacar nesta análise, que o volume de investimentos do País ainda é muito baixo para que este crescimento se torne sustentável no longo prazo. Para que tenhamos um ciclo virtuoso de crescimento, acima de 5,5% ao ano, sem pressões inflacionárias, seria necessária uma taxa de investimento acima de 23% do PIB, o que não é o caso no momento. Até estamos prevendo uma taxa próxima a 19% ao fim deste ano, mas daí a chegar em 23%.
Ø Estamos, portanto, bem abaixo do que a China poupa e investe, em torno de 43% do PIB, assim como a Índia, alocando 34% e a Rússia 20%. Uma boa notícia, porém, é que destes 18% de investimentos, 56% vem da alocação na aquisição de máquinas e equipamentos, o que pode ser visto como positivo por representar a ampliação da capacidade produtiva. Por outro lado, aproximados 44% vem da Construção Civil, importante na geração de renda e na expansão do produto do País, mas sem grandes efeitos multiplicadores sobre a expansão da capacidade produtiva da economia.
Podemos concluir, portanto, que o desempenho do PIB do primeiro trimestre se encontra bem acima do potencial do País, entre 4,0% e 4,5%, o que nos leva a prever uma política monetária mais apertada nos próximos meses. Com isto, e tendo-se em conta o fim da isenção de IPI para os bens duráveis e a base de comparação se invertendo, prevemos uma desaceleração do ritmo de crescimento até o final do ano. A expansão trimestral do PIB deve recuar de 2,7% para o patamar entre 1,0% e 1,5%. Ao fim do ano, o crescimento do País fechar em torno de 6,3% a 6,7%, com a indústria como o melhor desempenho, assim como os investimentos e o consumo privado.
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