Mais uma semana “carregada” de volatilidade neste fechamento de janeiro. Ao que parece, o stress nos mercados deverá ser regra neste ano de 2010, com poucos ciclos longos de alta, mas sim ciclos curtos entremeados por intensos movimentos de “correção”. Definitivamente, 2010 não será igual ao ano que passou.
Justificando toda esta instabilidade, alguns possíveis movimentos de aperto monetário e fiscal no mundo pós-crise, depois do afrouxamento necessário em 2009. Os primeiros países a acusarem este golpe foram aqueles que mais estimularam suas economias, como a China, ou aqueles que o fizeram mesmo num cenário de fragilidade fiscal, como a Grécia, e outros da Europa Central e do Leste.
Na China, o crescimento forte no ano passado, de 8,7%, acabou levando a autoridade monetária a anunciar uma série de medidas de controle do crédito e aperto do compulsório sobre os bancos, o que acabou gerando certo stress no mercado de ações global. No Brasil, o impacto acabou maior, pela grande liquidez e peso das nossas empresas na pauta de exportações para a China. Na Grécia, o esforço foi oferecer aos mercados títulos públicos com taxas atrativas para o financiamento da sua explosiva dívida, que ameaça passar dos 121% do PIB ao fim deste ano. O detalhe é que este fantasma assusta a todos os países ricos, na sua maioria fragilizados pelos excessos nas suas políticas anticíclicas de superação da crise.
Nos EUA, o desempenho do PIB no quarto trimestre acabou mais forte do que o esperado, crescendo 5,7%, quando o esperado era 4,7%, bem acima do registrado no trimestre anterior (2,2%). Neste cenário, o sinal amarelo de um aperto monetário já começa a rondar o imaginário dos agentes, embora a reunião do FOMC não tenha emitido nada neste sentido. Foi dito, mais uma vez, que a taxa de juros será mantida no atual patamar por um “período prolongado”. Um possível aperto monetário pode ocorrer talvez lá para o final deste ano.
No Brasil, por outro lado, o ritmo da economia indica o retorno de uma política monetária mais cautelosa em breve, ainda mais depois da reunião do Copom de janeiro. Nesta, foi dito que o BACEN observará o comportamento dos indicadores nestes 45 dias de intervalo até a próxima reunião em março. Como a inflação voltou a ameaçar – ver Anexo Informativo – e o nível de utilização da capacidade instalada está no limite, cresce a possibilidade de uma elevação do juro já nesta reunião. Não será surpresa, no entanto, se em vez disto, optar-se pela elevação do compulsório, entre outros instrumentos de política monetária disponíveis. Uma medida já decidida é a retirada gradual da isenção fiscal para vários setores. Nesta semana que passou houve o fim do IPI sobre a “linha branca”, já que começavam a faltar estes produtos nas prateleiras.
Preocupado com isto, o Ministério da Fazenda já tratou de anunciar um maior controle sobre os gastos públicos neste primeiro trimestre, visando tentar adiar a decisão do BACEN de elevar o juro agora em março. A ideia, neste caso, seria tentar reter as despesas neste período, mantendo o Orçamento sob controle, já que este é um dos focos de desconfiança dos mercados.
No ano passado, o desempenho fiscal acabou bem abaixo do esperado, com um superávit de R$ 64,51 bilhões, 2,06% do PIB, abaixo da meta de 2,5% e bem aquém do registrado no ano anterior, quando o saldo foi a R$ 106,42 bilhões, 3,54% do PIB.
A justificar este fraco desempenho, o forte aumento das Despesas Correntes, com avanço de 15,9%, mesmo patamar das Despesas com Pessoal, com Custeio e Investimentos avançando 16,9%, sendo baixa a participação destes últimos, os investimentos públicos, derivados, na sua maioria, dos projetos do PAC. Em relação ao PIB, as Despesas Correntes passaram de 16,3% do PIB para 17,1% entre 2008 e 2009, com os Investimentos estagnados em torno de 1% do PIB.
Para este ano, é preciso atenção especial à trajetória das contas públicas, pois teremos eleições e a pressão por gastos tende a ser maior. A meta fiscal para 2010 é de 3,3% do PIB. Com mais este componente, o Consumo do Governo, pressionando a Demanda Agregada, e diante de um PIB previsto, que vai de 4,7%, segundo o FMI, para cerca de 5,8% para a Fazenda, sem esquecer a trajetória dos investimentos, ainda muito tímida, não restará ao BACEN outra saída a não ser apertar o “torniquete da política de juros”. Para piorar, a dívida bruta do governo foi a 63% do PIB, derivada do excesso de crédito dos bancos públicos à economia.
Com isto, mais tensão deve se desenvolver na relação com a Fazenda e a ala mais à esquerda do governo. Outra dúvida no horizonte diz respeito à manutenção ou não de Henrique Meirelles no comando do BACEN. Lembremos que este prazo termina ao fim de março, início de abril. Dizem que ele estaria mais apto a aceitar um cargo numa destas instituições multilaterais, como o BIS, mas outros comentários afirmam ser Meirelles um ótimo vice da candidata do governo, Dilma Roussef. As cartas estão lançadas. Quem dá mais?
Concluindo, o que se tem, passado este mês de janeiro, é um cenário muito mais cercado de incertezas e volatilidades do que o antes imaginado. Tudo bem que por aqui o crescimento será exuberante, mas será que com a inflação sob controle? E o que dizer das políticas de desmonte na China e nos países ricos? Qual o risco? O risco, talvez, seja haver uma reversão de tendência, com a retomada frágil dos ricos sendo abortada, havendo um novo mergulho recessivo. Sendo assim, sairiam do crescimento na forma de “V” para mergulhar na retração no “W”.
Essencial será a dosagem das políticas públicas conduzidas pelos policymakers. Estas terão que ser adotadas com muito cuidado e cautela, para evitar este mergulho recessivo. Estejamos então atentos a isto.
Outra preocupação diz respeito ao risco na formação de bolhas nos mercados de ativos, dada a política monetária frouxa até então praticada. Alguns ativos se valorizaram muito, se descolando da realidade dos fundamentos econômicos. Este retorno do aperto, no entanto, terá que ser muito cauteloso, visando tentar suavizar o esvaziamento, ou o estouro destas bolhas.
O FMI, aliás, no seu relatório periódico “Perspectivas Econômicas Mundiais”, divulgado em Davos, está prevendo crescimento global de 3,9% e 4,3% em 2010 e 2011, impulsionado, em especial, pelos emergentes. Estes devem crescer cerca de 6,0% e 6,3% nos anos citados.
Serão eles, aliás, os atores a serem observados neste novo mundo que se descortina. Os ricos começam a se confrontar com os problemas dos emergentes no passado, como dívida pública explosiva, excesso de gastos, inflação, desemprego em alta, etc. Já para os BRICs, ou mesmo os emergentes avançados, o scritp é outro. Com exceção dos populistas latinos-americanos, como Venezuela, Argentina, Equador e Bolívia, os emergentes estão dando as cartas.
Para o Brasil, por exemplo, o FMI acredita num crescimento de 4,7% neste ano e de 3,7% em 2011. Nada mal, mas abaixo das estimativas realizadas aqui no Brasil. A pesquisa Focus, por exemplo, acredita em 5,3%, mesmo patamar desta Consultoria, com 2011 registrando crescimento em torno de 4,5%.
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