A construção de cenários tem na “variável tempo” o seu principal fator de definição. Como prever o que deve acontecer, neste ano e no próximo, com a economia global e, em particular, a brasileira, nas suas inúmeras variáveis interdependentes? Este parece ser a maior indagação a ser feita nesta fase de transição que vivemos.
Neste momento, somos um pouco escravos das intempéries do meio do caminho. Navegamos em mares, às vezes tempestuosos, onde a incerteza acaba prejudicando na análise do futuro próximo. Até acredita-se num cenário, mas a possibilidade de algo negativo (ou imprevisto) acontecer acaba por jogar por terra todas as premissas antes construídas.
Não tem jeito. Construir cenários é se agarrar a premissas e hipóteses heróicas, mesmo que, ao final do ano, tudo dê errado. Dá até para prever uma reversão de tendências, mas não dá para prever sua intensidade.
No cenário atual, tanto pode ocorrer o recrudescimento de uma crise fiscal na Europa ou mesmo um duplo mergulho (Double Deep) no mundo rico – trajetória econômica sobre a forma de W -, com estes países tendo que desarmar suas políticas monetárias e fiscais, ajustando-as e jogando suas economias num surto recessivo, como, também, a China, já mostrando pouca capacidade para manter um crescimento acima de 9%, desacelerando fortemente.
É possível considerar estes fatores na hora de construir um cenário, mas não dá para saber a intensidade dos seus estragos. Sendo assim, podemos dar a eles diferentes intensidades de ocorrência, impactando mais ou menos na trajetória do objeto a ser analisado, neste caso, a economia brasileira.
Nesta, segue-se um bom ritmo de crescimento, com a indústria em forte retomada, o crédito se expandindo, a confiança do meio empresarial e dos consumidores retornando, o desemprego recuando, entre outras boas notícias. No entanto, como já dito acima, num mundo cada vez mais interdependente não dá para se desgarrar do que acontece acima da linha do Equador.
Façamos, então, a seguir uma breve análise sobre o comportamento das nossas principais variáveis macroeconômicas neste ano de 2010 e a possibilidade de uma reversão na sua trajetória.
Crescimento da Economia. Estimativas preliminares indicam um PIB crescente em 5,4% em 2010 segundo esta Consultoria, podendo até passar de 6% para os mais otimistas. Neste caso, o “efeito carregamento” (carry over) deve ficar em torno de 3,5%, o que, somado a uma base de comparação favorável, além da Copa do Mundo e do ciclo eleitoral, deve acelerar o nosso crescimento, com maior concentração nas indústrias de bens duráveis e de capital, ambas impulsionadas por uma demanda doméstica mais aquecida e as obras do PAC. Em 2009, a economia sofreu os impactos da crise, tendo um desempenho muito fraco no primeiro semestre, mas se recuperando no seguinte. Com isto, o PIB acabou recuando cerca de 0,2% contra 2008, mas mostrando sinais de recuperação. Neste ano, o cenário que se tem é de um crescimento forte, até porque será um ano de consolidação dos projetos de investimento do PAC e o volume de crédito deve totalizar 50% do PIB, dada a preservação do nível de emprego e da renda.
Fatores de risco: Um maior arrocho da política monetária do BACEN é uma hipótese plausível, com o juro básico elevado ao intervalo de 10,75% a 11,25% ao final deste ano, assim como o uso mais intensivo de outros instrumentos, como o aumento do compulsório e a elevação da taxa de juros de redesconto. Este fator deve derrubar um pouco o crescimento.
Cenário Inflacionário. O forte repique da inflação neste primeiro bimestre acabou acendendo uma luz amarela para o BACEN. O IGP-M registrou 1,74% até a segunda prévia de fevereiro, o IPCA deve passar de 1,2%, assim como o IPC da FIPE. A justificar este repique, os reajustes das mensalidades e material escolar, a alta de taxas, como IPVA e IPTU, o impacto das chuvas sobre as hortaliças, elevando o item alimentação nos índices e os reajustes das tarifas de transporte. Com isto, as projeções, tanto para os IGPs como para os IPCs, acabaram revisadas, já prevendo uma elevação acima de 5% para este ano.
Fatores de risco: Com uma demanda doméstica mais aquecida e a volatilidade nos mercados fazendo o câmbio oscilar, não restará ao BACEN outra escolha a não ser manter uma “sintonia fina” nestas variáveis, apertando a política monetária.
Cenário das Contas Externas. Estimativas da Pesquisa Focus pioraram ainda mais o desempenho destas contas em 2010. Ao fim deste ano trabalha-se com um déficit em conta corrente em torno de US$ 50 bilhões, com uma forte piora no saldo comercial e na conta de serviços, com o aumento das remessas de lucros e dividendos. O que deve servir como contraponto a este cenário será o forte ingresso de investimentos externos diretos, o que pode amortecer um pouco esta deterioração externa, além das reservas cambiais, acima de US$ 250 bilhões.
Fatores de risco: Saída de divisas poderá significar uma maior pressão sobre o real, depreciando-o e podendo gerar impactos inflacionários. Além disto, as agências de rating podem começar a nos observar com mais atenção, colocando nosso “grau de investimento” na mira, já que a solvência externa, ou seja, a capacidade de um país se financiar é considerada um critério importante na avaliação destas.
Cenário das Contas Públicas. Na análise da economia brasileira esta pode ser encarada como a variável mais delicada. Isto porque o superávit público vem perdendo força nos últimos meses. A crise pode ser uma justificativa, mas o que importa é a qualidade das despesas acrescidas, e esta não foi nada boa. Aumentaram-se as despesas com custeio, com à de pessoal já acima de 5% do PIB, enquanto que às de investimento se mantiveram estagnadas, em torno de 1%. A meta de superávit de 3,3% do PIB neste ano é bem ambiciosa, ainda mais quando se tem eleição em outubro, mas um consolo poderá ser a arrecadação federal bem maior ao fim deste ano, com o crescimento do produto acima de 5%.
Fatores de risco. A falta de critério no aumento das despesas públicas e o apetite voraz pela presença de um Estado maior na economia só tendem a aumentar a carga fiscal sobre o setor privado, inibindo novos investimentos e a geração de mais empregos. Esperamos que o próximo governo eleito esteja bem atento a este fator, até porque a crise fiscal da Europa acabou mostrando que a irresponsabilidade no trato das contas públicas acaba cobrando um preço maior no futuro.
Cenário Global. Esta é a variável onde a incerteza é mais perturbadora. Neste momento, é difícil saber o desenlace das políticas de desmonte dos estímulos fiscais e monetários no mundo rico. A crise fiscal na Grécia ameaça outros países ricos, como Alemanha e França, ambos carregados de títulos públicos deste país. Um ajuste fiscal rigoroso parece necessário, mas distante para a realidade deste país e de outros, como Espanha, Portugal Irlanda e Itália, chamados de PIIGS e membros da Zona do Euro.
Fatores de risco. Políticas de ajuste terão que ser adotadas, mas o risco é de um novo mergulho recessivo. Estejamos atentos.
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