O noticiário cada vez mais rarefeito sobre a crise internacional parece encontrar uma curiosa má vontade, uma espécie de angústia da monotonia, ao menos no tocante à economia. Os mercados querem volatilidade, movimento, reformas, gás lacrimogêneo. Em vez disso, parecemos uma grande Dinamarca, onde tudo aparenta estar pronto, ou sendo aprontado lentamente pelo setor privado, indiferente à vontade e às ações midiáticas do Rei.
Bem, somos uma Dinamarca meio grande talvez, mais morena e malandra e, seguramente, mais repleta de podres. As analogias com a tragédia Hamlet, de Shakespeare, são tentadoras, especialmente se trabalharmos com alegorias para as mulheres da trama: Gertrudes, a rainha, mãe de Hamlet, e Ofélia, a prometida do Príncipe, filha de um alto oficial da corte e irmã de Laertes. A primeira é a Estabilidade, a segunda representa a Virtude em Políticas Públicas, a esposa ideal para o filho da Estabilidade.
Segundo a versão morena da tragédia, o verdadeiro rei não morreu de causas naturais, e a rainha Gertrudes, a Estabilidade Monetária, foi tomada como esposa pelo irmão do rei envenenado, num ato de apropriação indébita, entre tantos neste reino. Os inimigos da Estabilidade, no fundo, queriam-na para si. Todos os achaques contra a Rainha eram falsos, calúnias para enfraquecer o verdadeiro rei.
O filho da Estabilidade, sobrinho do Rei, o príncipe Hamlet, é avisado pelo fantasma de seu pai sobre o crime cometido pelo tio; mas nem precisava da lembrança, pois está em todos os jornais: o presidente não se cansa de dizer que a Estabilidade lhe pertence, pois com ela se casou, e seus áulicos, como o presidente do BNDES, dizem que o Plano Real foi feito em 2003.
O atormentado príncipe teme por sua vida e encena uma loucura para lhe assegurar o exílio ou a indiferença. Hamlet é ambíguo e contraditório, tal como a política econômica: pratica metas de inflação, mas ameaça com o plebiscito da Vale ou com o confisco das florestas da Aracruz em favor dos índios. Brandindo a caveira das utopias abandonadas, Hamlet, em solilóquio, pergunta, mesmo sabendo a resposta: ser ou não ser neoliberal?
Hamlet é ambíguo e contraditório como a política econômica: ser ou não ser neoliberal?
A aparente loucura de Hamlet desnorteia Ofélia, a Virtude na Política Econômica, a Credibilidade Internacional. Seu irmão Laertes, o Mercado, preocupa-se com ela, transtornada pelas oscilações de temperamento de Hamlet. Todos querem o casamento entre o sucessor da Estabilidade e a Virtude, mas Ofélia não compreende a ambigüidade do Príncipe e deixa-se manipular pelo Rei, mestre na dissimulação. Hamlet, levando sua loucura encenada mais adiante, renega Ofélia, diz que não se casará com o Neoliberalismo e sugere que ela se interne em um convento, lugar das Virtudes desnecessárias para uma época profana. Ofélia suicida-se, afastando o reino da Virtude em Políticas Públicas. Desesperado, Laertes conclama os maus humores do Mercado contra o reino e Hamlet. Uma crise se avizinha: a bolsa despenca, o dólar dispara e, na derradeira cena, Laertes e Hamlet disputam uma esgrima cheia de subtexto, que se torna uma luta mortal, enquanto o verdadeiro vilão, o Rei, envenena o vinho de ambos. Mas quem o bebe é a pobre Rainha Gertrudes, cuja perda o Rei não parece lamentar. E com a Estabilidade envenenada e morta, Hamlet enlouquece de ódio, fere o Rei com sua espada envenenada e a si mesmo, e a história termina em carnificina.
Sim, leitor, somos uma Dinamarca morena, onde a tragédia ainda não se consumou como profetizada pelo bardo inglês em 1600. Para evitá-la, basta que o Príncipe recobre sua lucidez. Hamlet, nesta versão morena, não é apenas uma alegoria para as Autoridades Econômicas. É também você, leitor, somos nós, todos imersos em hesitações caracteristicamente humanas, ou tucanas, diante das escolhas difíceis que se nos oferecem.
(Publicado em Época – 10/09/2007)
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