O ano se encerra sob os escombros da maior crise financeira da história moderna. Se 2008 foi o ano em que ruíram os mercados financeiros, 2009 é esperado como o ano do desabamento da produção e do emprego. O grande temor é que venha a depressão global, algo parecido com a Depressão dos anos 30 dos Estados Unidos ou da estagnação dos anos 90 no Japão. A intensidade da crise leva ao pessimismo: da bolha imobiliária à queda das Bolsas, do “crunch” de crédito ao colapso do consumo, tudo parece caminho sem volta para a depressão mundial.
Crise “Made in USA” – Apesar do material tóxico espalhado mundo afora, a crise foi fabricada nos Estados Unidos. É por isso que os efeitos mais devastadores sobre a produção e o emprego estarão ameaçando sua economia. O Federal Reserve (Fed), o banco central americano, manteve os juros extraordinariamente baixos por tempo demasiadamente longo. O resultado foi a expansão excessiva do crédito. Os americanos zeraram a poupança, exageraram no endividamento, embalaram uma formidável bolha imobiliária e encharcaram de crédito fácil a economia global. E serão agora o país que mais vai sofrer. Porém, mesmo ali, os contornos da crise serão muito diferentes do que ocorreu na Grande Depressão. A intervenção do Fed no sistema financeiro se dá em escala nunca vista. E ainda virá a Sétima Cavalaria. Após a posse de Barack Obama, entra em cena a política fiscal, com a expansão de gastos públicos para a geração de empregos em infraestrutura, em escala também trilionária. O esforço coordenado pode amortecer a queda.
A dimensão internacional – Com os mercados financeiros sincronizados, o mundo sentiu instantaneamente a crise. A desaceleração econômica global é inevitável. Mas, com o tempo, observaremos que os efeitos econômicos sobre a produção e o emprego serão assimétricos. Os asiáticos, particularmente o Japão e a China, foram cúmplices dos EUA na farra do crédito. Acumulando trilhões de dólares em reservas, financiaram o endividamento do consumidor americano sem permitir a necessária valorização de suas moedas, de modo a evitar o superaquecimento da economia global. E o mundo cresceu acima de 4,5% por cinco anos consecutivos, uma sequência inédita no pós-guerra. A China, que crescia acima de 14% ao ano, sofre agora forte desaceleração. Chegou a hora de reconfigurar seu modelo. Em meio à guerra mundial por empregos, terá de voltar sua economia mais para o mercado interno. Se é inevitável a desaceleração do crescimento econômico mundial, acredito na continuidade da dinâmica asiática e da reestruturação europeia. A crise é grave e será prolongada, mas ainda não creio em uma Grande Depressão.
O desafio brasileiro – No Brasil, o colapso da Bolsa, a disparada do dólar e o bloqueio do crédito causaram forte impacto inicial. À medida que se reconstituem canais de crédito interno que compensam, ainda que parcialmente, a interrupção dos fluxos externos, o país começa a voltar aos trilhos, embora crescendo menos. Mas o desafio permanece. Com o vento externo contra, voltaremos a sentir as limitações da armadilha socialdemocrata do baixo crescimento. Em plena guerra mundial por empregos, o Brasil se apresenta com juros muito elevados e encargos trabalhistas e previdenciários altos demais. Os juros são altos porque jamais houve coordenação das políticas monetária e fiscal. O Banco Central está isolado no combate à inflação há mais de duas décadas. Maior controle sobre a expansão dos gastos públicos correntes teria permitido juros mais baixos, liberando recursos para saúde, educação e segurança pública. E as reformas tributária, trabalhista e previdenciária ajudariam um país com dimensões continentais a conquistar sua própria dinâmica de crescimento. Enquanto isso, nossa economia, se não decola, pelo menos não afunda. Continua boiando na correnteza.
(Época – 05/01/2009)
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