Apesar da maré baixa por que merecidamente passam os financistas diante da opinião pública, a observação do investidor Warren Buffett em meio ao colapso dos mercados acionários é simplesmente imperdível: “Quando baixa a maré é que a gente vê quem estava nadando pelado.”
Excepcional analista dos fundamentos de empresas, Buffett alertava para os perigos de comprar ações de companhias sem futuro cujos preços subiam apenas porque a maré alta levanta todos os barcos. “A empresa ideal é aquela que obtém retornos muito altos sobre o capital e que continua usando bastante capital, de modo que você possa continuar reinvestindo a essas elevadas taxas de retorno ao longo de muito tempo. Mas existem pouquíssimas empresas assim”, ensinava Buffett.
Pois bem, em meio à maior crise financeira da História moderna, sabemos agora que os mercados se tornaram colônias de nudistas. Muita gente nadando pelada na maré alta da liquidez global. Entre as economias avançadas, a mãe de todas as bolhas financeiras e imobiliárias é americana. São também inegáveis os excessos na Inglaterra, na Espanha, na Irlanda e até na pequena Islândia. Bem como em emergentes com recursos naturais, como a Nova Zelândia – que exagerou no déficit em transações correntes -, e a Venezuela bolivariana – que andou financiando revoluções obsoletas.
E as economias emergentes com mercados internos de dimensões continentais, como Brasil, Rússia, Índia e China, conhecidas em bloco como BRICs? O economista Jim O”Neill, criador da sigla, aposta no crescimento do bloco, para contrabalançar a contração dos países industrializados, rebocando a economia mundial em 2009.
O Brasil tem fôlego para sustentar seu ritmo de crescimento? A interrupção do crédito externo e a queda das bolsas reduziram a disponibilidade de recursos e aumentaram o custo de capital para os investimentos. O que explica o recrudescimento das pressões sobre o Banco Central para baixar os juros. A redução dos juros ajudaria também na tentativa de manter o consumo interno.
É bem verdade que o fantasma de uma depressão global derrubou os juros em toda parte, tornando possível uma queda importante dos juros internos sem nenhuma ameaça ao equilíbrio das contas externas pela fuga de capitais em busca de maiores retornos. Mas a maior preocupação do BC na condução da política de juros é com a taxa de inflação.
Em plena guerra mundial por empregos, o Brasil se apresenta com juros, encargos trabalhistas e previdenciários altos demais. Os juros são altos porque jamais houve coordenação das políticas monetária e fiscal. O Banco Central está isolado no combate à inflação há mais de duas décadas. E as reformas tributária, trabalhista e previdenciária nos permitiriam criar uma dinâmica de crescimento com base na ampliação do mercado interno. Não, o Brasil não estava nadando pelado. Mas devia tirar o piano das costas.
O Globo – 12/01/2009
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