Se for feita uma pesquisa popular, muito provavelmente, os liberais serão encaixados em categorias como gananciosos, sem escrúpulos, vendidos aos EUA e pouco preocupados com os menos favorecidos (Bob Fields sendo o melhor exemplo). A causa desse mal entendido são anos e anos de um contexto intelectual que está fora de prumo, pendendo para a esquerda. O equilíbrio de opiniões que é vital para a democracia simplesmente não existe no Brasil. Enquanto nos EUA, por exemplo, os esquerdistas e direitistas se equivalem em termos de influência na mídia, aqui no Brasil temos os intelectuais de esquerda e os de centro, mas ninguém que seja claramente de direita. Esse trauma nacional vem, muito possivelmente da época do regime militar. A direita ficou associada a autoritarismo, falta de liberdade, tortura, atraso, fisiologismo e violência. A esquerda, por sua vez, conseguiu ser percebida, mesmo não sendo, como agente única da libertação, da paz e de uma convivência mais plural. Hoje no poder, podemos perceber como a esquerda é nada libertária, muito fisiológica e avessa a mudanças. Montada em um aparato de Estado construído pela mesma direita que ela tanto renegou, a esquerda se empoleirou na burocracia e personificou aquela máxima de Lord Acton, segundo a qual o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente, ou talvez já estivesse corrompida. O autoritarismo, marca central do ex-comissário José Dirceu, é percebido nos meios intelectuais brasileiros como uma característica dos direitistas por total associação ao período do regime militar. Mas há um porém extremamente sério aqui. Apesar de anti-comunista e moralmente conservador, de um modo geral, o regime militar possuía várias características da esquerda. Afinal, a aproximação diplomática com países socialistas, a pouca responsabilidade fiscal, a animosidade em relação aos Estados Unidos, os gastos estatais gigantescos e a ingerência em áreas como o campeonato nacional de futebol não são, de maneira alguma, traços exclusivos de um governo de direita. São traços de um governo estatista, intrometido e pouco responsável com a história econômica do Brasil. A questão central aqui é dissociar o autoritarismo tanto da direita quanto da esquerda. Autoritarismo é uma característica que pode ser, ou não, de ambas as correntes. O governo Pinochet era autoritário e de direita, mas o governo Thatcher era de direita sem ser autoritário. Assim como o governo de Fidel Castro é autoritário e de esquerda, o de François Miterrand era de esquerda sem ser autoritário. Essa associação imediata de conceitos com correntes políticas é prova cabal da imaturidade do debate político brasileiro. Só quando conceitos voltarem a ser conceitos e não programas políticos poderemos usá-los propriamente. Por enquanto nos resta desconstruí-los.
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