Outro dia eu tive um sonho. Nele, havia um alter-ego meu, um sociólogo, trabalhando arduamente em um cômodo de sua casa, repleto de livros e papéis: uma autêntica biblioteca. Ele escrevia sem parar no que seria a obra magistral de toda sua carreira acadêmica. Marx, Weber, Durkheim, Parsons, Mannheim, todos estes e mais uma centena de outros autores eram apenas peças de sua nova interpretação que ofereceria ao mundo. Imaginava, com um sorriso, o orgulho dos seus companheiros – e a inveja mal-disfarçada de outros: finalmente uma contribuição teórica original de um sociólogo brasileiro que revolucionaria a profissão em nível mundial! Assim como no mundo real, meu alter-ego não pesquisava com fartura financeira. Não senhor! O sujeito não tinha recursos suficientes para comprar todos os livros, fazer cópias de todos os artigos e, ao mesmo tempo, pagar por todas suas despesas. Como qualquer pesquisador brasileiro, ele havia recebido bolsas de pesquisa. Ora de órgãos públicos, ora de fundações estrangeiras (privadas ou não). Enfim, um autêntico representante da pesquisa científica brasileira. Quando já estava no fim do último capítulo do livro, batem-lhe à porta. O cansado estudioso se levanta, coloca um par de chinelos, amarra o roupão e vai até a porta. Abre-a e se depara com um bando de mulheres mascaradas, munidas de foices e bandeiras vermelhas. – Você é o sociólogo que está pesquisando os movimentos sociais? – Sim, de certa forma. Que prazer! Entrem. Sabem, na verdade, meu objeto de estudo… – Claro, sabemos o que faz. Temos lido seus artigos nos jornais. – Ah, obrigado, espero que tenham… – Não, não gostamos. Suas teorias nos enojam. Você claramente não compreendeu a lógica dos movimentos sociais. – Como assim? Veja, a realidade é muito mais complexa do que se pode escrever num artigo de jornal. Olha… – Não, amigo. Olhe você. O povo tem pressa. O movimento é dinâmico, composto de seres humanos. Enquanto você cria categorias abstratas, nós marchamos por mais terras, por menos exploração. – Mas eu não discordo da necessidade de justiça… – Cale a boca, rapaz! Sabe com quem está falando? Com quem conhece a pobreza, a fome e a miséria. Graças aos militantes, agora entendo também como sua porca sociologia aliena os indivíduos. Quanta decepção! E eu achava o senhor um grande marxista! – Espere, o que estão fazendo? – Viemos aqui destruir esta sua construção maldita. Pessoal, fogo na biblioteca! – Mas é minha vida! Foram vinte anos de pesquisas! Esperem, não façam… A biblioteca do sociólogo começou a arder em chamas. Desesperado, tentou correr, mas foi contido pelos braços das mulheres mascaradas. Enquanto chorava, pôde ver o quadro emoldurado na parede que fizera aos vinte anos de idade com a famosa frase de Karl Marx: “Não basta interpretar o mundo, é necessário transformá-lo”.
Não basta interpretar o mundo, é necessário transformá-lo
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Texto brilhante!