“A tarefa mais importante de um cientista é certamente contribuir para o avanço de sua área de conhecimento. A segunda tarefa mais importante é escapar da visão estreita de uma especialização excessiva, interessando-se ativamente por outros campos em busca do aperfeiçoamento pelo saber que é a missão cultural da ciência. A terceira tarefa é estender aos demais a compreensão de seus conhecimentos, reduzindo ao mínimo o jargão científico.” Karl Popper, em “Ciência: problemas, objetivos e responsabilidades” (1963), destaca esta terceira tarefa como “a mais urgente responsabilidade dos cientistas para a sobrevivência de uma sociedade aberta e democrática”. Essa reflexão nos remete a uma avaliação do papel dos economistas de boa estirpe acadêmica durante as duas décadas de regime democrático. Como explicar o experimento absolutamente exótico de derrubar a inflação com os gastos públicos indo de 20% para 40% do PIB? Duas décadas de combate antiinflacionário persistente em meio à explosão de gastos públicos? Faltou aos economistas a perspectiva teórica de equilíbrio geral? Por que produziram uma hecatombe financeira e a dupla sinistra de juros extraordinariamente elevados e câmbio indesejavelmente baixo? Eram monetaristas sectários testando a robusta hipótese de que a inflação é sempre e em qualquer lugar um fenômeno monetário? Eram jovens talentosos em busca de valorização profissional e reconhecimento, deixando-se cair nas teias de políticos inebriados em busca da demagogia possível em uma democracia emergente? Ou eram também social-democratas colocando seu conhecimento objetivo da ciência econômica a serviço de seu programa político? A única hipótese que podemos descartar, seguramente, é a de que sua política econômica, como ciência, esteve a serviço de uma economia política doutrinariamente liberal, neoliberal ou liberal-democrata. Não se pode confundir um socialista com cartão de crédito com um neoliberal. O excesso de gastos públicos extrapolou a dimensão econômica. A corrupção, a degeneração da prática política e a feroz disputa pelo poder “corroboram a advertência de Lord Acton de que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, o que torna “uma obrigação moral, em particular dos cientistas sociais, não apenas detectar e alertar contra os instrumentos de concentração de poder, mas também elaborar antídotos eficazes. Cientistas valorizam o pensamento crítico independente. Detestam a idéia de uma sociedade manipulada por tecnologias de comunicação de massa e concordam quanto aos perigos inerentes a essas tecnologias”. Essa nova advertência de Karl Popper, em “A responsabilidade moral do cientista” (1968), aplica-se muito a propósito a estas eleições presidenciais, em que os candidatos não falam das necessárias reformas, os partidos social-democratas disputam agendas negativas, no vácuo de propostas institucionais modernas, e a mídia saboreia o show diário do presidente.
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