Você sabe o que quer? Eu acredito que sim. Ouço, muitas vezes, entre alunos de graduação, comentários sarcásticos sobre isto. “O que, Claudio? Você é um destes que acredita que o consumidor é soberano? Não me faça rir”. Pois considere este experimento. Chame amigos com diversos graus de formação, que trabalham no setor público e no privado, etc, para uma reunião em sua casa. Quando estiverem todos reunidos, pergunte-lhes se algum deles acredita na soberania do consumidor. Provavelmente você ouvirá o argumento de que “soberania do consumidor é uma fantasia”, dentre outras críticas. Prossiga a conversa. Incentive o debate sobre os problemas do Brasil. É sempre um bom papo e todos gostam de propor soluções. Nada mais saudável. Sugira, então, que o governo deva fazer uma reforma, digamos, nas leis trabalhistas. Diga que você defende que o FGTS deva ser transformado numa poupança não-compulsória, o que daria ao trabalhador um poder maior sobre aquela grana que lhe pertence mas que não lhe dão, no arranjo legal atual. Aposto que você será elogiado. É bem possível que 100% dos seus amigos achem a idéia razoável. Alguns vão até se surpreender com você: “estes liberais não são assim tão desumanos”. Você terá alguns minutos de glória, creio. Aproveite o momento. Contudo, antes de sair da sala para buscar as cervejas, vire-se e pergunte aos colegas: “mas se o consumidor não é soberano e não sabe escolher, pois é influenciado pela propaganda ou pelo ideário neoliberal, não seria perigosíssimo adotar minha proposta sobre o FGTS”? É quase certo que haverá uma reação de revolta entre seus amigos, independente de sua religião, nível educacional ou preferência sexual. Afinal, todos foram pegos em uma inconsistência lógica. Tem gente que usa, nestas horas, uns argumentos bem estranhos, nos quais a tal soberania valeria em algumas situações, mas não em outras; sem explicar o critério utilizado para esta súbita mudança de opinião. Outros dirão que não é bem assim, que a realidade é mais complexa (ou “não-linear”) e tal. Por isto é importante que continuemos nós, acadêmicos, a ensinar para as pessoas que nem tudo que é senso comum faz sentido quando se pensa cientificamente. E pensar cientificamente é algo que ajuda quando se quer pensar em soluções para problemas sociais ou não.
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