Uma semana turbulenta, na qual a moratória do grupo Dubai World, adiando em seis meses o pagamento de uma parcela da dívida de US$ 59 bilhões, acabou servindo de estopim para uma forte correção dos mercados na quinta-feira. Lembremos que este fundo atua nos segmentos imobiliários e na administração de portos. Ou seja, é muito ligado ao mercado imobiliário (real state), principal setor da economia de Dubai (23% do PIB), e do sistema financeiro (11% do PIB).
Neste contexto, o fantasma do calote de dívida voltou assombrar os mercados. Pelo indicador que mede o custo de seguro contra inadimplência, o CDS, ou swap de risco de crédito, a alta na quinta-feira foi considerável, o que demonstra a forte aversão ao risco e a migração dos investidores para ativos mais seguros.
O fato é que as economias dos países ricos vêm convivendo cada vez mais com o risco de calote nas suas dívidas. Dentre estas, a de maior risco é a da Itália, cujo montante deve fechar 2010 em torno de 127% do PIB. Os EUA flutuam em torno deste patamar, com o Brasil carregando uma dívida bruta em torno de 60% do PIB.
Isto nos leva ao debate em torno do timming ideal para as operações de desmonte dos estímulos fiscais e monetários. O volume de recursos mobilizados no mundo chegou a US$ 10 trilhões e com isso a economia global vem retomando, mas o grande dilema é saber o momento adequado para o desarme deste excesso.
É opinião desta Consultoria que este desmonte só deve começar a acontecer quando os sinais de retomada da economia forem mais consistentes, com o emprego retornando, a renda gerada e a atividade econômica impulsionada, com o crédito dos bancos sendo demandado de um consumidor menos endividado. Estamos falando, neste caso, da economia norte-americana, aonde o desemprego chegou a 10,2% da PEA, com os canais de financiamento prejudicados pelo receio do consumidor em se endividar, ainda mais com desemprego como ameaça real.
Na visão do FMI, inclusive, isto parece muito claro. Para Dominique Strauss Kahn, gerente-chefe do FMI, esta retirada dos estímulos precisa ser bem cautelosa e lenta, sendo feita de acordo com a divulgação dos indicadores econômicos. Quanto melhor eles forem, mais fácil será o processo de desmonte. Para ele, “com uma saída rápida, você mata a recuperação. Com uma saída tardia, você planta as sementes da próxima crise. Recomendamos errar pelo lado da cautela, uma vez que uma retirada das medidas muito cedo será mais custosa do que muito tarde”.
No Brasil, a mobilização dos recursos públicos acabou se mostrando acertada pelo lado da isenção fiscal, com a redução do IPI para vários setores da economia, como “linha branca”, automóveis, construção civil e, na semana passada, com a inclusão da indústria moveleira. Com isto, perde-se em arrecadação, mas se ganha depois, no outro lado da cadeia, com a retomada da economia, o que deve gerar uma arrecadação federal maior e suficiente para compensar estas perdas com as isenções fiscais. Pelo menos, este parece ser o cálculo do governo.
Os dados fiscais, no entanto, acabaram duramente impactados nestes últimos meses com as medidas fiscais adotadas, mas mais ainda o foram pelo aumento das despesas com custeio, na manutenção da máquina pública, na contratação de novos servidores e nos reajustes destes, além das despesas adicionais na Previdência.
A meta fiscal deste ano, antes em 2,5% do PIB, acabou rebaixada a 1,56% depois da retirada dos investimentos, na sua maioria das estatais, muitos direcionados para o PAC, como despesas correntes. Mesmo assim, com esta folga fiscal criada, o resultado primário segue sofrível.
Entre setembro e outubro deste ano, pelo enfoque dos 12 meses, este recuou de 1,17% do PIB para 1,0%, já comprometendo a meta ajustada para 2009. E observemos que o resultado fiscal deste ano foi turbinado por uma série de receitas extraordinárias, como o recolhimento de R$ 5 bilhões em depósitos judiciais. Em função destas, entre outros fatores excepcionais, o resultado primário de outubro acabou registrando R$ 13,81 bilhões, maior saldo mensal desde 2001, acumulando no ano R$ 51,5 bilhões, ou 2,06% do PIB, bem aquém do registrado no mesmo período do ano passado (queda de 3,29 pontos percentuais).
Já a dívida líquida do setor público registrou R$ 1,33 trilhão, chegando a 44,8% do PIB, 0,2 ponto percentual menor do que em setembro, com a dívida bruta a R$ 1,98 trilhão, 66,8% do PIB. Ao fim deste ano, estamos prevendo um saldo primário em torno de 1,3% do PIB, com a dívida líquida em torno de 45% do PIB.
Sem Comentários! Seja o primeiro.