Quase trinta anos após sua morte, Ayn Rand continua atual, e a venda de seus livros disparou com a recente crise financeira. Muitos acreditam que Atlas Shrugged foi um livro profético, antecipando a socialização dos Estados Unidos. Historiadores têm mostrado interesse na vida desta influente pensadora. O livro Goddess of the Market, de Jennifer Burns, faz um excelente relato da trajetória de Ayn Rand. O que emerge é um ser humano com suas falhas e contradições, como não poderia deixar de ser. Afinal, os heróis criados em suas novelas eram arquétipos do “super-homem” nietzschiano, e ninguém poderia esperar que a própria Ayn Rand fosse como John Galt.
O que Burns mostra de forma interessante é como a história de vida de Alisa Rosenbaum ajudou a moldar Ayn Rand. Sua experiência na Rússia comunista, o ataque bolchevique à fábrica de seu pai, o uso da força contra sua propriedade e seus direitos mais básicos, e tudo isso embalado com uma linguagem altruísta, exerceu profundo impacto em suas idéias. Rand construiu um edifício ideológico calcado na lógica individualista, que não permitiria brechas aos inimigos coletivistas. Para agravar a situação, ela foi viver nos Estados Unidos justamente numa época em que inúmeros intelectuais americanos admiravam a experiência soviética, em parte por ignorância. Ayn Rand sabia melhor, e não iria tolerar nenhum tipo de contemporização com o mal. Ela seria uma radical na defesa do capitalismo.
A filosofia de Ayn Rand, o Objetivismo, foi moldada sob a influência de pensadores como Aristóteles, Isabel Paterson e Rose Wilder Lane. Com o tempo, Ayn Rand alegou total originalidade em suas idéias, e descartou quase toda influência que teve em vida. Seu sistema era absoluto e fechado, derivado da razão universal, da existência de uma realidade objetiva. A partir de certos axiomas, toda uma filosofia seria desenhada, não permitindo espaço para contradições. No entanto, algumas contradições já saltavam aos olhos, pois Ayn Rand era uma racionalista que escrevia ficção romântica, e apesar de tanto enaltecer a razão, era uma mulher claramente sujeita ao impacto de fortes emoções. Ela era humana, demasiada humana.
Nada disso anula o valor de suas idéias na defesa do individualismo. Rand criou personagens que ajudaram na distinção entre indivíduos independentes e aqueles parasitas que ela chamava de “canibais morais”. Seu ataque ao coletivismo passou a ser cada vez mais um ataque ao altruísmo, entendido como um sacrifício individual em função do “bem-geral”. Rand passou a pregar as virtudes do egoísmo, o direito de cada indivíduo viver para satisfazer seus potenciais e interesses, em vez de ser um escravo dos demais. Ela defenderia o capitalismo com bases morais, não com argumentos utilitaristas. Rand acreditava muito no poder das idéias, e sabia que somente através de sólidos princípios o capitalismo teria uma chance. Os empresários não deveriam mais pedir desculpas por seus lucros. Lucrar não era vergonha alguma, e não deveria ser justificado com base no utilitarismo. O lucro era o resultado de mentes independentes que tinham total direito sobre aquilo que construíam.
Ayn Rand foi uma pessoa excêntrica. Não era fácil lidar com ela, e vários amigos descobriram isso com o tempo. O uso constante de anfetaminas não deve ter ajudado. Ao decorrer dos anos, ela foi se tornando mais intransigente e arrogante, alimentada pela reverência do grupo de seguidores liderado por Nathaniel Branden. Rand acabou criando uma espécie de seita, onde ela era uma figura autoritária. Não obstante tais contradições, seu legado foi fundamental para o avanço do movimento libertário nos Estados Unidos. Não é preciso abraçar dogmaticamente todas as suas idéias para dar o devido valor ao individualismo e à razão que ela tanto ajudou a enaltecer. Nesse sentido, ela de fato merece todo reconhecimento por parte dos defensores da liberdade individual.
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