O princípio de que se deve permitir que os indivíduos, como seres racionais, tomem livremente decisões a respeito do que é mais benéfico aos seus interesses, uma vez que ninguém tem conhecimento mais profundo acerca das circunstâncias que motivam suas ações, é um princípio fundamental do liberalismo. As sociedades contemporâneas, mesmo as mais liberais, não o aplicam inteiramente: proíbem, por exemplo, o uso de entorpecentes, a união civil entre homossexuais e o ato de dirigir um veículo sem cinto de segurança. São coações praticadas sob o argumento de que os indivíduos devem ser impedidos de realizar escolhas inapropriadas ao seu próprio bem-estar, de acordo com padrões alheios e tidos como universais.
O mesmo princípio tem validade no âmbito internacional. Nenhuma nação ou organização internacional pode pretender saber quais políticas e instituições são mais propícias ao desenvolvimento de um país estrangeiro. Um povo desfruta de posição privilegiada quanto ao conhecimento das circunstâncias que recortam suas opções disponíveis. Intervenções externas representam a imposição de padrões, mais uma vez, alheios e tidos como universais.
Evidentemente, a proteção da liberdade de realizar escolhas, defendida pelo liberalismo nos campos doméstico e internacional, não implica a legitimidade de valer-se da esfera individual privativa para planejar e executar violações à liberdade de outrem. Surge, assim, no plano internacional, o interesse dos Estados em impedir que outras nações, no gozo da liberdade de definir a natureza de sua vida política interna, acalentem planos e realizem ações visando a agredir outros Estados. Ataques preventivos constituem proteção da paz e da liberdade mundiais. Em traços largos, pode assim ser resumida parte da argumentação oficial do governo dos Estados Unidos da guerra do Iraque, iniciada em 2003.
O livro Acidentes de trabalho — Meu governo no Iraque, do diplomata inglês Rory Stewart, que não recebeu a devida atenção da imprensa brasileira, relata as dificuldades enfrentadas pela coalition of the willing na implantação de uma democracia liberal e constitucional no Iraque.
Rory Stewart ocupou cargos de cúpula na administração civil das províncias de Maysan e de Dhi Qar, entre setembro de 2003 e junho de 2004. Foi nomeado para os cargos devido ao seu notório conhecimento de situações pós-conflito e dos povos árabes, mas esse conhecimento não impediu seu fracasso na instituição de um regime democrático.
A sociedade iraquiana caracterizava-se pela extrema pulverização do poder e pela incapacidade de manutenção do monopólio da força por grupamentos policiais oficiais. Tribos tradicionalistas lideradas por xeques, milícias xiitas que antes resistiam ao governo de Saddam, grupos apoiados pelo Irã, todos altamente armados e em recíproca animosidade, apresentavam projetos de poder díspares.
Rory Stewart procurava, por meio dos mecanismos de conciliação característicos de regimes democráticos, implantar sistemas de governança que reuníssem os grupos políticos relevantes das províncias, concedendo-lhes a oportunidade de decidir, consensualmente, os destinos de seu povo. As sessões dos Conselhos de Província, no entanto, eram marcadas pela condenação retórida das forças de ocupação e pela tomada de decisões que logo seriam descumpridas.
Os ataques às sedes da administração civil das províncias de Maysan e de Dhi Qar confirmaram a violenta oposição dos iraquianos a estarem submetidos a estrangeiros que, por mais que conhecessem sua realidade (como Rory Stewart), não poderiam conhecer como os iraquianos as circunstâncias que delimitavam as opções disponíveis.
Ao narrar sua experiência, o bem-intencionado Rory Stewart demonstra, talvez sem o saber, que ataques preventivos devem ser levados a cabo apenas em situações de inconfundível plano de ataque externo. Ao motivar a tentativa de reconstruir, com base em padrões alheios, a política e as instituições de um país, ataques preventivos implicam a violação da liberdade de um povo, os melhores conhecedores de suas circunstâncias e de suas possiblidades, de construir sua própria nação. Não cabe a outros países ou organizações internacionais impor seus padrões alheios e tidos como universais.
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