Professor do IMD defende que o governo brasileiro deve arruma arrumar a casa para dar fôlego aos investimentos e melhorar sua competitividade
No ranking mundial de competitividade, elaborado pela escola de negócios suíça International Institute for Management Development (IMD), o Brasil vem perdendo posições nos últimos anos. Foi de 38º em 2010 para 51º em 2013, com quedas sucessivas. A pesquisa deste ano será divulgada em maio. Apesar de os resultados ainda estarem em elaboração, o espanhol Arturo Bris, que assumiu no início deste ano o centro responsável pelo ranking, concedeu entrevista à “Época Negócios” para falar sobre o país. A lista de problemas soa como velha conhecida: é preciso investir em infraestrutura, diminuir a burocracia, formar mão de obra especializada. Bris, no entanto, afirma que o início das concessões é um passo importante para a economia brasileira, defende que a recuperação dos países desenvolvidos é boa notícia para nós e que o governo pode atrair muitos investimentos promovendo mudanças pontuais no ambiente de negócios.
Época Negócios – Quando falamos de competitividade, quais são os obstáculos mais evidentes no caso brasileiro?
Arturo Bris – Em relação aos problemas que é possível atacar em termos de política econômica há dois pontos principais. O primeiro é a infraestrutura. Isso envolve, claro, a parte mais crítica, como estradas, acesso aos portos, infraestrutura de comunicação, que sabemos ser entraves físicos ao desenvolvimento de negócios. Mas também envolve a questão da educação. Se você olhar para os rankings de ensino, o Brasil está sempre nas últimas posições. A boa notícia é que educação não é algo que você precisa de muito tempo para transformar. Dá para fazer milagre em um curto período de tempo. O problema é que o impacto dessas reformas na economia leva um tempo até se materializar.
E.N. – Mas são reformas que precisam ser realizadas, de um jeito ou de outro, é isso?
Bris – Sim. Só que investir em educação não é uma evolução natural nas economias. São os políticos que precisam tomar a iniciativa de fazer as reformas, mas geralmente essa não é a prioridade. Como disse, os resultados não são imediatos e políticos costumam ter visão de curto prazo, querem se reeleger, então acabam não se dedicando a isso. No entanto, os países mais bem-sucedidos do ponto de vista de competitividade, de Alemanha à Cingapura, são aqueles que decidiram colocar a educação na linha de frente de suas políticas.
E.N. – Você falou sobre o primeiro problema. Qual é o segundo?
Bris – São as medidas para facilitar o ambiente de negócios. As políticas do governo para criar um ambiente que facilita a existência de empresas. E há muitos indicadores de que isso é um problema no Brasil. Do típico indicador que mostra quanto tempo se demora para abrir uma empresa no país a questões mais tangíveis, como impostos e leis trabalhistas. São aspectos que precisam ser melhorados.
Em termos de performance na economia, o Brasil foi muito bem nos últimos anos. Mas há um problema que o país pode ter ignorado. Crescimento do PIB, investimentos e entrada de capital são ótimos para a economia, mas para tornar essa prosperidade sustentável é preciso criar uma boa infraestrutura para os negócios.
E.N. – Há exemplos de países que conseguiram fazer isso?
Bris – Temos um exemplo da Arábia Saudita. Eles implementaram uma iniciativa chamada 10 por 10, que consiste em melhorar a competitividade da economia resolvendo dez problemas. Esses problemas basicamente são os componentes do Doing Business Index, do Banco Mundial, e incluem questões como o tempo médio para abrir uma empresa. Eu acho que as economias não precisam ser ambiciosas e querer mudar tudo. Você pode fazer pequenas reformas e melhorar substancialmente a criação de novos negócios.
E.N. – Apesar de o Brasil ter uma taxa baixa de desemprego, há uma insatisfação sobre a qualificação da nossa mão de obra. Isso é um problema a longo prazo?
Bris – Sim, com certeza. Acho que no caso do Brasil, mais do que o nível da educação, também é preciso olhar o quanto o sistema educacional está indo de encontro à necessidade do mercado. Por exemplo, na área de tecnologia. Sabemos que as empresas atualmente precisam de muitos funcionários formados em computação. O sistema está dando ao mercado os candidatos que ele precisa? Você pode ter a melhor educação do mundo em termos de performance mas ela pode não estar indo ao encontro da economia.
Isso também requer parcerias entre o setor privado e público. As empresas podem financiar novos programas nas universidades, oferecer bolsas e você pode fazer com que elas colaborem na elaboração dos currículos.
E.N. – Alguns analistas dizem que, por conta da recuperação de países desenvolvidos, como os Estados Unidos, os BRICs podem ser prejudicados. Qual a sua opinião sobre isso?
Bris – Certamente o Brasil deve ser cauteloso porque algumas economias na Europa e os Estados Unidos estão se recuperando. Também vejo que todo aquele interesse que havia antes pelos BRICs já está se deslocando para outros países como México, Malásia, Indonésia, Nigéria e Turquia, as novas economias que estão florescendo. Mas essas coisas vem e vão. Sempre haverá competição, não importa de onde venha. Então é importante para o Brasil tentar garantir sua fatia entre essas economias.
No entanto, algo que eu sempre gosto de ressaltar quando falamos de competitividade é que a competição a nível de países é diferente daquela a nível de empresas. A recuperação da economia norte-americana não é uma ameaça para o Brasil. É bom. Os EUA são um país importador, então o Brasil, que é um país exportador, se beneficia mais do que se prejudica.
E.N. – Sediaremos a Copa do Mundo este ano. Como o senhor avalia o impacto desse evento?
Bris – Pela experiência que temos de outros eventos similares, minha opinião é que o mais importante é o que acontece depois. É muito importante que o Brasil, uma vez encerrada a Copa, comece a tirar o máximo de proveito dos investimentos que foram feitos. O perigo maior é virar a página, seguir em frente e dizer ‘que bom, acabou, nos divertimos muito, construímos estádios, agora vamos aproveitar’. A Copa do Mundo pode atrair muitos investimentos, mas pode fazer completamente o oposto. A Grécia não teve uma experiência positiva com as Olimpíadas, por exemplo. Acho que simplesmente você não pode esquecer de quanto gastou para viabilizar o evento e deve, quando ele acabar, tirar proveito desses ativos.
E.N. – No ano passado, o Brasil avançou em seu programa de concessões. Isso é bom para a economia?
Bris – Sem dúvida. Um dos problemas que identificamos em alguns países é que a participação do Estado na economia é muito grande. Precisamos encontrar receitas para dar um papel maior para a iniciativa privada. O único caminho para a recuperação e prosperidade nos próximos anos passa pelo setor privado, não público. Os governos não estão em posição de liderar o desenvolvimento da economia. Isso precisa ser deixado para o setor privado.
E.N. – Por quê?
Bris – Sabemos que o setor privado é mais eficiente, porque ele é impulsionado pelas regras de mercado. Os governos tendem a ser menos eficientes por estarem sujeitos à corrupção, falta de incentivo para entregar resultados. Em segundo lugar, porque os governos cada vez menos são capaz de tomar iniciativa. Os déficits fiscais aumentam, a população envelhece e sobrecarrega o sistema previdenciário…
E.N. – Mesmo assim, não seria importante o governo brasileiro aumentar sua taxa de investimento?
Bris – Isso é um exemplo de uma variável que você não precisa atacar diretamente. Acho que atrair investimentos requer a criação de um bom ambiente de negócios. Para isso, você precisa de políticas públicas, regulação, infraestrutura. Uma vez que essas áreas melhoram, os investimentos virão naturalmente. Esse deve ser o papel do governo. Facilitar o processo para que os investidores se interessem pelo país.
E.N. – Você assumiu o Centro de Pesquisa sobre Competitividade este ano. Como está sendo a experiência?
Bris – É muito encorajadora. É uma atividade na qual você realmente se sente contribuindo com o resto do mundo. O que fazemos não é apenas fornecer estatísticas para os países, mas acreditamos que podemos ajudar as economias a se desenvolverem e criar prosperidade para as pessoas. Eu quero agora desenvolver um novo centro de estudos para entrar também no mundo corporativo e ajudar as empresas a se tornarem mais competitivas.
E.N. – Falando em empresas, você acredita que, mesmo com as dificuldades particulares de cada país, boas práticas no mundo dos negócios podem ajudar a transformar a economia?
Bris – Sim. Sempre digo isso aos executivos que passam pela escola. Eles não imaginam o poder que possuem no mundo de hoje. Companhias e executivos podem mudar a sociedade. A importância que grandes empresas têm na economia e a influência que elas têm entre as pessoas é incrível. Acreditamos que muitas das mudanças que veremos nos próximos anos virão do mundo corporativo e serão iniciadas por seus líderes. Como ouvimos no Homem-Aranha, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Então acho que poderíamos exigir mais responsabilidade das empresas perante a sociedade porque elas possuem muito poder.
Fonte: Época Negócios
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