“O novo cenário poderá se configurar um período de aceleração dos preços, impulsionado pelos efeitos defasados da liquidez ofertada pelos bancos centrais e os preços das commodities.” Relatório Trimestral de Inflação.
Ao longo do ano passado, os mercados respondiam sempre positivamente aos efeitos das medidas de afrouxamento monetário e fiscal do mundo pós-crise, com cada indicador favorável divulgado sempre trazendo otimismo aos investidores.
Ao longo do segundo semestre e no início deste ano, no entanto, a “biruta dos ventos” acabou virando. Agora a preocupação dos mercados se volta para a inevitabilidade das operações de desmonte das medidas monetárias e fiscais ao redor do mundo, com especial destaque para os desenvolvidos. Com a retomada do crescimento sendo “excessiva”, as atenções se voltam para o receio do que isto deve gerar nos mercados de ativos, tanto na formação de novas bolhas e seu estouro, como pelos riscos inflacionários.
Na semana passada (dias 17 a 22) este risco voltou a assombrar, diante do crescimento da China, 10,7% no quarto trimestre, contra o mesmo período do ano passado, e 8,7% no acumulado ao ano. Para piorar, a inflação veio mais alta, com o IPC registrando 1,9% em dezembro e o IPP passando de 1,7%.
O fato é que o crescimento chinês vem sendo obtido de forma desigual, com grande participação do crédito bancário e do setor imobiliário, mesmo com bom avanço dos investimentos em infraestrutura. Isto vem gerando preocupação pelo risco da formação de bolhas, em especial, em dois segmentos, financeiro e imobiliário.
Respondendo a isto, medidas monetárias de restrição à expansão do crédito vêm sendo adotadas, como a elevação do compulsório, de 12% para 12,5%, e das taxas dos títulos públicos de variados prazos. Para março, os sinais indicam a elevação da taxa de juros de referência de um ano, atualmente em 5,31%. Lembremos que esta taxa equivale ao juro básico, decidido pelo Copom e balizado pelo BACEN, atualmente nos 8,75% anuais.
Por aqui, o fantasma da inflação também vem preocupando, já que o crescimento previsto para este ano, entre 5,1% e 6,0% para os mais otimistas, acabará gerando uma pressão adicional de demanda, com os dados inflacionários da semana passada jogando mais lenha nesta fogueira.
O IPCA15 registrou 0,52% em janeiro e as prévias do IGPM e do IPC da FIPE acabaram acima do esperado, todos estes índices pressionados pela alta dos alimentos, com destaque para carnes e hortaliças e os serviços sazonais, como tarifas públicas, como as de transporte, IPTU e IPVA, mensalidades e material escolar. Estas altas costumam ocorrer neste início de ano. O problema é que as deste ano vieram maiores do que o esperado. O IPCA, por exemplo, previsto acima de 0,5% para janeiro, deve vir em torno de 1,2% neste primeiro trimestre.
Para piorar os ânimos, as commodities agrícolas e minerais subiram muito ao longo do ano passado e mesmo cedendo um pouco neste início de 2010, acabam se tornando mais um fator de preocupação. As commodities agrícolas subiram 32% e as industriais em torno de 97% no acumulado em 12 meses, ambas impulsionadas pela demanda asiática.
Com isto, o governo já estuda a adoção de medidas alternativas, como mexer nos impostos para baratear a produção, aumentar as importações, com tarifa zerada dos produtos em falta nas prateleiras, um controle maior sobre os reajustes da gasolina, com a redução do CIDE, e até mesmo a isenção fiscal para os vários bens duráveis agraciados recentemente, como a “linha branca”, automóveis, sem esquecer a construção civil e os bens de informática.
Em paralelo a isto, crescem os boatos sobre a possibilidade do Banco Central vir a adotar medidas mais ortodoxas no controle do crédito, como a elevação do compulsório, o retorno do aperto na taxa de redesconto sobre as operações interbancárias, ou mesmo a elevação da taxa básica de juros. Esta pode ocorrer na reunião do Copom de abril. Para esta semana não teremos novidades, com o juro básico mantido nos atuais 8,75%, mas será importante decifrar o que vem na ata da semana posterior.
Visando contrabalançar estas preocupações, os investimentos em ativo fixo até que vem dando uma boa contribuição, o que pode ser visto como um alento. Por outro lado, a capacidade de resposta destes a uma demanda mais forte sempre costuma ocorrer de forma mais lenta e defasada, o que não nos permite ser muito otimista.
Aguardemos, então, os próximos passos do governo e da autoridade monetária.
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