A ferocidade da disputa política contrastou com o vazio dos argumentos, a falta de conteúdo das propostas e a ausência de um antagonismo substantivo entre os dois candidatos social-democratas, Lula e Alckmin. A pobreza dos debates reflete a falta de uma candidatura representativa das modernas democracias liberais do Ocidente, movidas por economias de mercado e uma ação social descentralizada do Estado. Em meio ao turbilhão de acusações e promessas vazias na esfera política, destacou-se a serenidade do pano de fundo econômico durante toda a campanha eleitoral. É verdade que somos prisioneiros de uma armadilha de baixo crescimento e corrupção sistêmica, pela incapacidade de conter o excesso de gastos públicos e aprofundar as reformas de modernização. É também verdade que o custo de erradicar a inflação foi extremamente elevado, pela ausência, desde o início, de uma âncora fiscal. Mas é inquestionável que a tranqüilidade no front econômico deve-se ao desabamento da taxa de inflação. Esse fenômeno deve-se essencialmente a uma nova geração de economistas de excelente qualidade, que transformou o Banco Central em um verdadeiro escudo institucional da moeda brasileira. Não se discute a qualidade do jogador de futebol brasileiro. O pentacampeonato mundial é um critério objetivo de desempenho. Também não se discute a qualidade do músico brasileiro, cuja arte é ouvida e apreciada em todos os cantos do planeta. O mesmo não se podia dizer de nossos economistas, embaraçados pela seqüência de planos antiinflacionários mal-sucedidos nos anos 80 e 90. Mas por tentativas e erros, aos trancos e barrancos, acabamos encontrando o caminho da estabilização. Sem muita ajuda da classe política, que expandiu ininterruptamente os gastos públicos durante duas décadas, e sob crítica permanente da mídia, do empresariado e da opinião pública em geral, jovens economistas como Gustavo Franco, Armínio Fraga, Sergio Werlang e Affonso Bevilacqua construíram a reputação institucional de um Banco Central de Primeiro Mundo. E novamente a avaliação é por um critério de desempenho objetivo e universal: uma taxa de inflação de Primeiro Mundo. Ao contrário dos músicos, dos jogadores de futebol e desse grupo de economistas, nossa classe política ainda está aquém dos padrões internacionais. Uma reforma que tornasse o presidente eleito e o novo Congresso mais funcionais à democracia representativa poderia melhorar seu desempenho. Refiro-me em especial a duas cláusulas de fidelidade partidária: a perda do mandato para evitar as trocas oportunistas de partido e o princípio da votação em bloco nas matérias, após uma decisão democrática interna. A legenda carregaria todos os votos do partido para aprovar ou rejeitar projetos de lei, agilizando o trâmite das matérias. E o Congresso teria, então, uma forma de devolver ao Banco Central o que este fez pela classe política: aprovar sua autonomia, institucionalizando a despolitização da moeda. Se, por um lado, atribuo a ferocidade e o vazio das campanhas políticas ao esgotamento da agenda social-democrata, quero, por outro lado, creditar a tranqüilidade das eleições a esse grupo de economistas e sua construção institucional.
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