O Desesperança com o socialismo e perplexidade ante o capitalismo global. Em “Cachorros de palha” (2002), o filósofo inglês John Gray ataca as crenças progressistas do humanismo científico: “O mundo globalizado é uma construção delicada. Uma população incomparavelmente maior que em qualquer outra época depende de redes de suprimento muito amplas. E qualquer guerra numa escala como a dos maiores conflitos do século XX poderia eliminar partes da população da maneira descrita por Thomas Malthus no século XIX. Se você quiser entender as guerras do século XXI, esqueça os conflitos ideológicos do século XX. Em vez disso, leia Malthus. As guerras futuras serão guerras por recursos naturais declinantes.” Prossegue Gray: “Não cometa o engano de pensar que guerras de escassez aconteceram apenas entre os pobres. A riqueza de países depende de eles manterem pulso firme sobre os recursos naturais. Na Ásia Central, um grande jogo estratégico foi reaberto, com interesses poderosos competindo pelo controle do petróleo, tal como o fizeram no século XIX. No Golfo Pérsico, populações pobres em rápido crescimento necessitam de preços altos do petróleo para que possam sobreviver. Ao mesmo tempo, os países ricos necessitam de petróleo com preços baixos para que possam continuar a prosperar. O resultado é um clássico conflito malthusiano.” Em obra anterior, “O falso amanhecer” (1998), John Gray havia exposto sua perturbadora visão do futuro da humanidade: “Mercados globais e inovações tecnológicas combinaram-se para produzir uma economia global anárquica, condenada a gerar enormes conflitos geopolíticos. Thomas Hobbes e Thomas Malthus são melhores guias para este novo mundo do que Adam Smith ou Friedrich von Hayek. A escassez de recursos e os conflitos de interesse entre as grandes potências econômicas tornarão a cooperação internacional cada vez mais difícil.” Segundo o filósofo inglês, “o socialismo deve ser definitivamente descartado. Estados totalitários assassinaram milhões de pessoas e devastaram o meio ambiente. No futuro, vejo apenas variedades de capitalismo. Mercados globais anárquicos destroem antigas modalidades do capitalismo e criam novas, todas inerentemente instáveis. A globalização negligencia necessidades básicas dos seres humanos, como segurança econômica e identidade social”. Para Gray, a social-democracia será outra vítima da globalização: “O projeto histórico de reconciliação da economia de mercado com a democracia está em crise. Os mercados globais não mais permitem o endividamento excessivo. A mobilidade de capitais permite às empresas localizar a produção onde a regulamentação e o peso dos impostos sejam menos onerosos. A contradição entre a social-democracia e os mercados globalizados parece incontornável.” Começou a guerra mundial por empregos. Antigos países socialistas, como China, Rússia e os do Leste Europeu, invadem mercados globais em busca de inclusão social e econômica, atingindo mortalmente a social-democracia, falida pela miragem do Estado como mecanismo de inclusão. Agoniza a social-democracia ocidental na arena global, vítima da mais selvagem modalidade capitalista: a ex-comunista eurasiana.
Leia também
Política sensorial: como as cidades podem enobrecer as pessoa
13/01/2026
*Felipe Modesto Caminhe por qualquer uma das grandes metrópoles brasileiras e você sentirá imediatamente: o calor sufocante refletido pelo...
Parternalismo estatal
13/01/2026
*Gabriel Pellon O Brasil tem proporções continentais. Sua extensão de terra supera a de todos os países ocidentais europeus, se estende da linha...
A HÝBRIS DO PODER DO STF: QUANDO O GUARDIÃO DECIDE NÃO SER CONTIDO
26/12/2025
*Maria Eduarda dos Santos Vargas Heródoto narra, como símbolo de poder, que Xerxes, rei da Pérsia, ao ver sua ponte sobre o Helesponto ser...
Agilidade Institucional e Reforma do Estado no Brasil: lições comparadas sobre governança, talentos e entrega
26/12/2025
A 50ª edição do Millenium Paper reúne, em formato de policy paper, uma reflexão sobre os desafios estruturais da reforma do Estado no Brasil....
Sem Comentários! Seja o primeiro.