O governo federal vai gastar este ano US$ 3,3 bilhões para auxiliar 11.1 milhões de famílias nos seus programas sociais. Sessenta e cinco por cento para famílias do Norte, Nordeste e Noroeste. É a solidariedade estatal em ação, no seu formato compulsório, marketing barulhento, custo gigantesco e complexo balanço moral e econômico. São programas que resultam do nosso grande desconforto com a pobreza. Recentemente foram divulgados os relatórios do BID e do Banco de Espanha sobre remessas dos latino-americanos aos seus países de origem. Dos EUA, transfere-se para a América Latina e Caribe US$ 45 bilhões este ano. Da Espanha chegam mais US$ 7,2 bilhões. “As remessas constituem um dos programas de alívio à pobreza mais amplos e efetivos do mundo”, diz o presidente do BID. O relatório do BID indica que o Brasil vai receber este ano US$ 7,2 bilhões somente dos EUA. Eram US$ 2,6 bilhões em 2001. Aumento de 180% nos últimos cinco anos. Pode-se estimar para este ano que os brasileiros no exterior remeterão para suas famílias US$ 10,5 bilhões. É uma injeção de renda 3.2 vezes maior do que os programas sociais do governo federal. E sem custos para os contribuintes e sem clientelismo. Esta gigantesca transferência internacional de renda para brasileiros pobres é efetuada de forma privada, voluntária e silenciosa por estas pequenas comunidades solidárias que chamamos de famílias. À transferência internacional se somam transferências inter-regionais, feitas pelos brasileiros que se deslocam para o Sul em busca de trabalho e também enviam bilhões de reais para seus familiares pobres. Esta solidariedade familiar combinada com a queda dos preços dos alimentos é a mais importante explicação para a explosão de consumo nos segmentos mais pobres, com sua conseqüência na eleição presidencial. A explicação oficial é a Bolsa Família. Entretanto, programas sociais são antigos e de históricos difusos e irônicos. Conseqüências não intencionais, como a da política monetária. Muita troca de seis por meia dúzia. O repasse do salário mínimo e a solidariedade estatal, incluindo sua administração, tiram renda dos mais pobres. A carga fiscal no Brasil é maior para os pobres. Tirar em impostos 50 reais por mês de uma família pobre é fácil para o governo. Sobrou a burguesa e desdenhada solidariedade familiar, especialista em driblar as estatísticas de pobreza, a começar pela moradia popular. Somente a solidariedade familiar internacional está agora injetando o equivalente a 35 milhões de bolsas-família direto na veia dos mais pobres, para os quais a vida melhorou muito nos últimos anos. Este primeiro eleitor racional vota com o bolso. O segundo eleitor racional está lá fora. Ele votou antes, com os pés. O político sortudo acha que é a causa do primeiro fenômeno, mas a evidência mostra que ele é causa do segundo. A solidariedade familiar causada pela falta de oportunidade para trabalhar e empreender no Brasil é devastadora em suas conseqüências negativas, pois expulsa os jovens mais ativos e empreendedores do nosso país. Como diz o relatório do BID, vão para os EUA com obsessão pelo trabalho. E como trabalham! Dos EUA, eles enviam 10% da renda deles para as famílias, um dízimo realmente divino. E ainda pagam 26% da renda deles para o governo dos EUA. Estes brasileiros são uma fábrica de riqueza nos EUA.
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