No ensaio “Das nuvens e dos relógios” (1965), publicado em sua coletânea “Conhecimento objetivo” (1972), o filósofo austríaco Karl Popper recorre a dois paradigmas simplificados como referências para o estudo de sistemas físicos, biológicos e sociais. Em um extremo, as nuvens. Representam sistemas físicos altamente irregulares, desordenados e quase imprevisíveis. Os exemplos são as moléculas de gases, a dinâmica de fluidos em turbulência e até mesmo as condições climáticas. Em outro extremo, os relógios. Particularmente os de pêndulo representam visualmente sistemas físicos regulares, ordenados e altamente previsíveis em seu comportamento. O exemplo clássico são as órbitas dos planetas no Sistema Solar. A preocupação de Popper era a de que, destronado o determinismo da física clássica newtoniana, uma indeterminação fundamental como a do Princípio da Incerteza de Heisenberg atribuísse ao acaso um enorme papel em nosso mundo físico. “A idéia de que nada existe entre o perfeito acaso (as nuvens) e a perfeita causalidade física (os relógios) parece-me claramente absurda, pois o que queremos compreender é exatamente como entidades não-físicas como propósitos, crenças, regras, convenções e valores, expressões da liberdade humana, podem trazer mudanças físicas ao mundo”, afirma. Da mesma forma, entre os economistas que estudam crescimento, aumenta a percepção de que “uma visão de mundo, uma ideologia com base em modelos subjetivos a que as pessoas recorrem para explicar e avaliar o mundo a sua volta não só desempenha papel fundamental nas opções políticas como também é o elemento-chave para o desempenho econômico. Ideologias estereotipadas tornam-se percepções de uma sociedade e refletem-se em políticas estatais. Os estereótipos ideológicos que dominam o pensamento político mudam à medida que muda o conhecimento científico. Mas o ritmo de mudança reflete a ineficiência dos mercados políticos”, como afirma Douglass North, em “Custos de transação, instituições e desempenho econômico” (1992). Prossegue North: “O mercado político eficiente seria aquele no qual os eleitores pudessem avaliar corretamente as políticas preconizadas pelos diversos candidatos em termos do efeito que teriam em seu bem-estar. A prevalência de estereótipos ideológicos inadequados como base dos modelos subjetivos usados pelos indivíduos para compreender seu meio ambiente e fundamentar suas escolhas leva à formação de mercados políticos que podem perpetuar instituições improdutivas e suas disfunções. É essencial haver instituições econômica e politicamente flexíveis, que se adaptem às novas oportunidades.” “A ascensão do mundo ocidental é fundamentalmente um caso de sucesso na história das inovações institucionais”, segundo North. No Brasil, se não pudemos contar com as condições iniciais de colonização historicamente favoráveis (o acaso das nuvens), sabendo também que a criação de arcabouços institucionais eficientes e adaptáveis não decorrerá espontaneamente da globalização (a mecânica dos relógios), resta-nos um ato de livre escolha pelas reformas institucionais.
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