Depois de um longo período de ajustes globais nos mercados de ativos, na semana passada estes voltaram a respirar, diante das várias sinalizações positivas dadas pelas economias, tanto a norte-americana, como de outros países ricos e a brasileira. A impressão que se tem, agora, é que o pior da crise já foi superado, mas a cautela ainda deve ser mantida como regra. Poucos se atrevem em prever uma retomada consistente entre este ano e o próximo, restando muitas dívidas sobre sua intensidade.
Acreditamos numa retomada lenta da economia global, sem descartar a possibilidade de uma recaída neste segundo semestre, ou mesmo ao longo do ano que vem. Além disto, achamos que o Brasil, e os outros grandes emergentes, como a Índia e a China, devem sair primeiro desta crise, muito provavelmente neste segundo semestre de 2009 para o primeiro de 2010, ao contrário dos ricos, que ainda devem patinar por mais alguns meses.
Nesta linha de raciocínio, na “sopa de letrinhas” para definir os ritmos da economia global nos próximos meses, tem-se os formatos de “L” ou de “V” como, praticamente, superados. A economia global não deve derrapar numa longa depressão, como no caso da letra “L”, nem se recuperar rapidamente, como fazia crer os otimistas que defendiam o ritmo sob a forma de “V”. Neste caso, a economia iria rapidamente para o “fundo do poço” e depois se recuperando prontamente, com o restabelecimento do crédito.
Acreditamos mais numa economia em lenta retomada, com um viés muito mais para a letra “U”, sem deixar de descartar totalmente a possibilidade de uma recaída no “meio do caminho”, se aproximando então da “W”.
Pela nossa visão, a economia norte-americana sai do “fundo do poço”, em lenta retomada, mas ainda sujeita a alguns solavancos. Segundo o “profeta do apocalipse econômico”, o economista turco norte-americano Nouriel Roubini, “a recuperação da economia ainda é longa e árdua, e a situação pode piorar antes de melhorar novamente.” Roubini, inclusive, não descarta um mergulho recessivo em 2010, decorrente do forte endividamento público e de novas pressões inflacionárias, com a alta das commodities, o que deve estimular o Fed a “trocar de mão” na gestão de política monetária. Outro fator de risco se relaciona à saúde financeira do sistema bancário norte-americano, com especial atenção para o real destino dos ativos podres, ainda nas carteiras dos bancos, e dúvida crescente sobre a real situação dos nível de endividamento do consumidor e da operacionalidade dos cartões de crédito, diante do risco de inadimplência.
Na verdade, se o Fed for obrigado a voltar a agir ativamente na política de juros, saindo da “armadilha de liquidez” atual, de juro zerado para elevado, o custo disto recairá sobre a recuperação tênue da economia norte-americana, que começa a mostrar alguns sinais positivos, ainda que frágeis. Lembremos que esta armadilha ocorre quando nem mais o “juro zerado” tem a capacidade de estimular a demanda, com os consumidores receosos de gastar e se endividar, empurrando a economia para um quadro de estagnação.
Voltando-nos para a economia nacional, o “grau de liberdade” parece bem maior no caso do Bacen brasileiro, se comparado ao Fed, e outros bancos centrais, de países como Japão. Por aqui, a política de juros segue em queda, mas ainda com uma “gordura” considerável para cortes futuros. Na semana passada, o Copom sancionou mais uma vez as expectativas dos mercados, com um corte pontual de 0,5 ponto percentual, com a taxa recuando de 9,25% para 8,75%, perfazendo um juro real em torno de 4,23% ao ano.
No comunicado do Copom foi dito que este novo corte deve ajudar “na recuperação não inflacionária da atividade econômica”. Isto pode ser interpretado como um indício de que este foi o último de uma série de cortes, iniciados em janeiro, depois da redução de 5 pontos. Neste período, a taxa recuou de 13,75% para 8,75%, como observamos no gráfico ao fim, e assim deve permanecer até o fim de dezembro. A corroborar para esta queda de julho, a inflação ainda em níveis confortáveis – o IPCA-15 recuou a 0,22% na semana passada -, e a atividade econômica se recuperando, mesmo que de forma errática, e setorial.
Por outro lado, a contribuir para uma possível pausa, a preocupação com a perda de atratividade dos fundos de investimento, em função da forte taxação, na comparação com a caderneta de poupança.
O ideal é que haja um balanceamento entre estes dois ativos, já que o primeiro é importante por ser carregado, nas suas carteiras, por títulos públicos, essenciais no financiamento da dívida pública federal, e o segundo, mais voltado às camadas de baixa renda, servindo também no financiamento habitacional, gerenciado pela Caixa Econômica. Com estes cortes de juro, a atratividade da poupança acaba maior, derrubando a demanda pelos fundos, por estes serem muito taxados. Para serem competitivos, seria preciso uma taxa de administração média de, no máximo, 1% ao ano nos vários fundos existentes.
Mesmo assim, é preciso atenção ao ambiente econômico, tanto doméstico como internacional, nos próximos meses, para que se definam os próximos passos do Bacen. Tudo dependerá do desenrolar dos acontecimentos econômicos e das próximas decisões do governo no gerenciamento da poupança e dos fundos de investimento.
Cresce a tese, no entanto, de que teremos um “freio de arrumação” neste período, com a autoridade monetária aguardando e observando os efeitos do ciclo de cortes, iniciado em janeiro passado.

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