Se você pegar quaisquer definições de esquerda e direita, vai ver que elas variam de acordo com a posição mais à esquerda ou à direita de quem está falando – o que é inteiramente justo, já que cada pessoa tem direito a seu próprio quadro de referências. Mas, se quisermos definições um pouco mais imparciais, a primeira coisa a observar é que esquerda e direita são apenas posições que precisam ter um centro como referência, isto é, é preciso estar à direita ou à esquerda de algo. Do ponto de vista político, uma questão central é a relação entre o Estado e a sociedade. Se você acha que cabe ao Estado resolver os problemas da sociedade, você é de esquerda. Se acha que cabe à sociedade, entendida como grupo de indivíduos livres, resolver seus problemas sem o uso da coerção física que é a característica definidora do Estado, você é de direita. Há naturalmente muitas posições intermediárias: você pode achar que cabe ao Estado resolver certos problemas e não outros. Quando o centro fica mais próximo do estatismo, a divergência entre direita e esquerda girará apenas em torno da maneira como o Estado deve agir. A questão é mudada para a esfera moral e religiosa, a direita ficando com o lado pró-religião e a esquerda com o laicismo. Aqui no Rio esta questão esteve nos jornais quando a governadora tomou certas decisões em relação ao ensino religioso nas escolas públicas. A “direita” favoreceria o ensino religioso tradicional, e a “esquerda” a ausência de ensino religioso. Todas estas posições, enfim, podem ser combinadas. Você pode ser estatizante (esquerda), moralista (direita), e contra a religião (esquerda); pode ser anti-estatizante (direita), moralista (direita), e a favor da religião (direita). Ou pode ter uma posição complexa e ser estatizante, moralista e laicista, colocando-se, sob certo aspecto, mais à esquerda do que à direita. Uma esquerda e uma direita honestas se beneficiariam de um discurso mais claro, que fosse além de sentimentos difusos de simpatia ou antipatia. Sem contar, é claro, aquela parte do público que não tem a menor obrigação de se interessar por política.
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