O Ministério do Trabalho divulgou na semana passada o maior ritmo de destruição de empregos já registrado entre os trabalhadores com carteira assinada. Foram 650 mil demissões em apenas um mês. O estrago foi geral, atingindo a indústria de transformação, a agricultura, os serviços e a construção civil. Mas o maior barulho vem mesmo das montadoras, autopeças, eletroeletrônicos e siderurgia, setores ligados à indústria automobilística. Como São Paulo é a maior concentração de sindicatos patronais e trabalhistas, os sons da crise são os do flagelo dos bandeirantes.
Enquanto a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Força Sindical negociam acordos de redução de jornada e de salários, para evitar demissões, o Ministério do Trabalho expediu notificações a centrais sindicais e federações de empregadores, exigindo o cumprimento das leis trabalhistas, sob a ameaça de anulação dos acordos na Justiça do Trabalho.
A contração econômica global – causada pela má condução das políticas monetária e creditícia pelas autoridades, pelo excesso de alavancagem arquitetado pelos financistas e pela hipertrofia do financeiro ante o produtivo em escala planetária – tornou-se um buraco negro, deflagrando a guerra mundial por empregos.
A frustrante inapetência da socialdemocracia por reformas só piora as coisas. As distorções em nossos mercados de trabalho são colossais. Os excessivos encargos previdenciários e a obsoleta legislação trabalhista já são responsáveis pela exclusão econômica e social de 50 milhões de brasileiros. Expulsos dos mercados formais de trabalho por impostos que discriminam a mão-de-obra em favor de máquinas. A enorme cunha fiscal aumenta o custo do trabalho para as empresas, derruba o salário dos trabalhadores e exclui dos mercados formais exatamente os mais desfavorecidos. Tornam-se prisioneiros da armadilha da baixa produtividade, ao serem privados dos investimentos que aumentam continuamente os salários da economia formal.
O protecionismo e o sindicalismo patronal e trabalhista atingiram seu auge econômico na ditadura militar. As barreiras à importação permitiam lucros extraordinários aos cartéis industriais – tão extraordinários que, apesar da elevada carga tributária e até mesmo do frequente controle de preços, deixavam ainda uma gorda fatia a ser disputada pelos trabalhadores sindicalizados. Seria trágico se um presidente metalúrgico, formado em admirável resistência política mas nutrido em ordem econômica deformada, tivesse como sonho retornar ao útero carcomido daquela mesma ordem social degenerada. A classe política brasileira sempre se curvou ante o corporativismo das elites patronais e trabalhistas em detrimento da inclusão social de 50 milhões de trabalhadores informais. Por quanto tempo poderá ignorar as demissões em massa agora no setor formal?
O Globo – 26/01/2009
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