Milton Friedman, prêmio Nobel de economia de 1976, deu recentemente uma entrevista, publicada no Estado de São Paulo (link para assinantes), em que defendia – como era de se esperar – o mercado como solução para os problemas sociais. Sua tese mais interessante é que, dada a grande heterogeneidade das sociedades, apenas um alto grau de liberdade nas relações pode permitir a paz. Apenas grupos homogêneos de pessoas podem ter objetivos comuns – não podemos esperar, por exemplo, que muçulmanos e ocidentais leigos tenham a mesma posição em relação ao adultério, mas podemos esperar que, se eles não forem forçados a estabelecer relações entre si, aproveitarão as relações que estabelecerem livremente. O mercado é exatamente isto: ninguém te obriga a comprar ou vender nada. E mesmo ele é sancionado pela lei religiosa das três religiões monoteístas, pois quando Deus disse a Moisés no Sinai que “não roubarás”, estava sancionando o direito de propriedade. A política, por outro lado, “exacerba as diferenças”, como diz Friedman. Ele também observa que a tendência das pessoas é tentar resolver os problemas através da política, do governo, aprovando leis. O argumento em favor do mercado é complexo, está mais relacionado à prudência, uma virtude mais associada à senectude e com pouco apelo. O Estado sugere a força, com que as pessoas podem se relacionar mais imediatamente. Faltava dizer, mas isso Hayek já disse, que é importante que os defensores do mercado e da prudência consigam encontrar maneiras de convencer as pessoas de suas idéias. A retórica, como disse Aristóteles, existe para que a verdade possa triunfar. Um ponto final levantando por Friedman, desses que são tão óbvios que facilmente nos escapam, é que as transações entre duas pessoas freqüentemente afetam uma terceira, e daí é que nasce a regulamentação. Um exemplo banal é o do vizinho que, usufruindo seu direito de propriedade, coloca o som no volume máximo, o que afeta o uso silencioso da propriedade de outros vizinhos. Como o número das divergências entre as partes é indefinido, não pode haver, como sugeriu Fukuyama, o chamado “fim da história”, pois há um número indefinido de arranjos possíveis para acomodar estas três partes. Friedman dá um show de lucidez. Se você acha que ler textos de economia é uma aventura por um reino ininteligível, procure seus textos.
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