O que falta para o Brasil deslanchar? Mais políticos honestos seria um começo razoável, pois são eles que criam as leis.
Leis mal feitas favorecem a corrupção, ativa e passiva, que é o principal freio do desenvolvimento e alimento da instabilidade social. Basta ver que nos países onde a corrupção é uma “tradição”, a riqueza fica restrita em uma pequena elite, que se mantém mantendo o povo ignorante, usando e abusando da violência.
O Brasil, por suas raízes histórias sempre foi um país agrário, o que é uma benção. Mas também foi vítima do extrativismo predatório. Nossos colonizadores tiraram tudo que puderam, mas não souberam aproveitar dessa riqueza, por má gestão. Essa “cultura” infelizmente ainda está presente em alguns quadros políticos brasileiros. A gestão do país ainda é disputada ferrenhamente por grupos que competem entre si, não necessariamente “para o bem de todos e felicidade geral da nação”. A gente vota pela saída dos corruptos e incompetentes, alguns até merecem ser presos e banidos; mas sempre há uma nomeação ou indicação política que diz ao povo que eles ficam na vida pública. O mandato é do povo, mas vários acordos, votações e atos são secretos.
Mas houve hiatos históricos, que mostraram que o Brasil dos “currais eleitorais” poderia ser mais que “celeiro do mundo”. Mauá provou que havia lugar para indústria. Foi massacrado por conta disso, mas recuperou-se. “Brasileiro não desiste nunca”!
Getúlio Vargas seguiu à risca a idéia de que crise e oportunidade caminham juntas:
Apesar de ditador, negociou a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, lutando em nome da “liberdade”, em troca da implantação da indústria siderúrgica no Brasil, base para o desenvolvimento industrial. Talvez por ser tão bom em “azeitar” as coisas também criou a Petrobras.
Tendo aço e combustível, Juscelino deu o próximo passo, ou melhor, como tinha a pressa dos “cinquenta anos em cinco”, preferiu consolidar a indústria automobilística no Brasil a 100 km/h, que as crises de petróleo, a partir de 1973, limitaram em 80 km/m, até o Brasil praticamente parar, a partir de 1980.
Os governos militares investiram no “Milagre Brasileiro”, que teve prós e contras. A melhoria da infraestrutura viária e energética foi marcante. Já a Transamazônica e a Nuclebras foram fiascos faraônicos, apesar de permeadas por intenções estratégicas: integração e preocupação com as usinas termonucleares de “nuestros hermanos”. A criação da Embraer foi um dos pontos altos desse período, mas a reserva de mercado de Informática e a proibição de importação de carros nos deixaram anos-luz atrás no desenvolvimento internacional de tecnologias. Pagamos muito caro por isso: no produto de baixa qualidade e pelo sucateamento da indústria nacional. Afinal, se só tinha aquilo para comprar, porque investir em modernização do parque industrial? Na cabeça dos empresários de então, a reserva de mercado extinguiu a “lei da oferta e da procura”: se ninguém comprava, em vez de baixarem os preços, demitiam funcionários, reduziam a produção e aumentavam ainda mais o preço. Os carros enferrujavam e trepidavam em poucos meses. Para serem exportados era necessário modificar centenas de itens! Para piorar, como quase todas as grandes empresas eram estatais, o ranço “cultural” brasileiro as transformou em imensos “cabides de emprego”, com contratações sem concurso público, mérito ou competência, para cargos regiamente remunerados. Pensando bem, esse quadro não mudou muito… No mais, crises de petróleo, radicalismos de direita e esquerda, financiados pelos dois lados da Guerra Fria, e uma monumental dívida externa transformaram o “milagre” em anos de inflação galopante e recessão causticante.
Aí, os mesmos que incharam as empresas estatais resolveram que tudo precisava ser privatizado! Inicialmente, isso foi um ótimo negócio… Para as empresas privadas! A maioria dos leilões foi vencida por grupos internacionais, que tiveram suporte financeiro estatal, e os contratos davam mais garantias do que obrigações às concessionárias. Entramos no churrasco da “globalização” com a carne… Lembram do “apagão”? Ecomizamos energia, a “pedido” do governo e sob pena de multa; depois, pagamos mais, para compensar a redução de arrecadação das concessionárias…
E o que era necessário para o Brasil deslanchar? Políticos honestos já seria um bom começo.
A gente acreditou nisso quando um jovem resolveu caçar “marajás”.
Comparando com outros, até que ele não foi tão ruim assim, ainda mais pelo pouco tempo que ficou. Sua principal obra talvez tenha sido a liberação de importação de veículos. Mas, as velhas “carroças” ainda circulam por aí, soltando tanta fumaça que a inspeção veicular não consegue enxergá-las, preferindo taxar os veículos novos. Hoje, a produção nacional atingiu níveis de qualidade mundiais, enfrentando e suplantando cada nova ISO que os países ricos inventam para prejudicar os emergentes, nessa globalização de mão única em que ainda vivemos.
Mas estamos em tempos de liberdade de imprensa, típica de regimes democráticos, apesar de algumas tentativas de amordaçamento, aqui e ali. Graças a ela, os escândalos se multiplicam?
Isso quer dizer que a democracia é corrupta? Não! Ela só traz à tona o que regimes de exceção escondem.
Aí, criam miríades de leis que deveriam punir, mas já trazem em seu bojo os meandros que favorecem a impunidade. Há lei para tudo. Mas nem sempre há justiça.
Aí veio o Plano Real, que deu certo depois de um monte de fracassos e inconsequências cujos responsáveis ainda circulam por aí, formosos e influentes.
Os governos que se seguiram tiveram o bom senso de “não mexer em time que está ganhando”, e o Brasil alcançou relativa prosperidade. Começamos a investir em produção científico-acadêmica; voltamos a investir em infraestrutura; o agronegócio floresce e dá frutos; o etanol revisitado virou solução energética mundial. Por conta disso, passamos a ter significativos e progressivos superávits na balança comercial, até alcançarmos o antes inimaginável: reservas monetárias superiores a divida externa, “risco país” baixo, inflação sob controle. Ficamos menos susceptíveis, embora nunca imunes, às crises internacionais. Vamos entrar para a OPEP! Pleiteamos uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU! Viramos credores do FMI e exemplos de gestão financeira até para os países do G8!
Então, o que falta para o país deslanchar? Seria o “tijolinho” do BRIC?
Pode ser… Mas, mais políticos honestos já seria um ótimo caminho.
Mas ainda guardamos o ranço cultural da colônia: os “pistolões”, padrinhos e tráfico de influência continuam aí, só que com um nome mais bonito, embora antiquíssimo: nepotismo. Quem o pratica não quer competência, inteligência ou sabedoria a serviço do povo: quer lealdade, ou “melhor”, cumplicidade com interesse pessoal.
Isso é discriminação! Mas também estamos evoluindo nesse sentido. Afinal, a democracia implica estado de direito, e todos são iguais perante a lei, como afirma a Constituição. E para promover essa igualdade melhoraram a educação? Deram as mesmas condições para todos? Não, criaram cotas: discriminação institucionalizada, em vez de oportunidades iguais, com base em mérito.
O dinheiro público continua sendo malversado. Alguns dos que dizem que representam o povo e defendem o país, mandam muito do que sorvem da nação para paraísos fiscais: países “detergentes”. Outros cobram “comissões” para liberar verbas destinadas a programas sociais, inclusive de merenda escolar. Gentes, principalmente crianças, morrem em função disso, e não são poucas. Isso poderia ser considerado genocídio doloso, crime hediondo, mas não é! Pelo contrário, eles têm imunidade, ou seja, “licença para matar”…
Mas isso é só culpa deles? Não! Dizem que cada povo tem o governo que merece… E os mesmos políticos ou seus “herdeiros” estão sendo eleitos e reeleitos. Mesmo quando perdem, continuam na vida pública. As denúncias não os incomodam ou afetam, pois as leis que os julgam, cunhadas por eles mesmos, protegem mais do que punem. Por outro lado, outras leis, consideradas “modelos” pelo mundo, ou não “pegam”, ou criam dificuldades para vender facilidades, ou confundem rigor com morosidade, atravancando o desenvolvimento do país.
Bastaram duas décadas para o Brasil sair da condição de “mendigo” financeiro, para uma posição de relativo respeito internacional. E tudo isso apesar de todas as nefastas “tradições” das elites que governam o país: sejam de direita ou esquerda.
Ainda cultuamos mitos e alguns inventores de suas próprias lendas; ainda cultivamos o gosto ibérico por líderes carismáticos e mártires; ainda insistimos em pedir favores e dar “jeitinhos”, em vez de exigir e respeitar direitos, de cumprir e fazer cumprir deveres.
O Brasil está evoluindo economicamente, pela força empreendedora do brasileiro e com ainda frágeis apoios de políticas governamentais e dos agentes financeiros. Mas a consciência nacional também precisa evoluir e abandonar práticas anacrônicas, que só beneficiam pouquíssimos.
Alguns podem dizer que, apesar das crises: financeira, moral e ética estamos indo de “vento em popa”. Mas a velocidade de barcos a vela não é mais referência. “A todo vapor” também não é ecologicamente correto. Mas mesmo que estivéssemos voando em “Mack”, de nada valeria se não houvesse planejamento estratégico sério, de médio e longo prazo.
Então, o que o Brasil precisa para deslanchar como país e, principalmente, nação?
Bem, precisa investir maciçamente em educação, saneamento, pesquisa científica e tecnológica, desenvolvimento sustentado, soberania territorial, enfim, em tudo aquilo que todo mundo já está cansado de saber. Mas não basta criar essas condições ideais e formar profissionais de ponta: é fundamental que todo esse potencial criativo, inteligência, sabedoria e capacidade empreendedora do povo brasileiro não estejam a serviço da mediocridade esperta.
Assim, ter mais políticos honestos e bem intencionados já seria um excelente começo!
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