Os sintomas de dificuldade da economia brasileira estão por toda parte e só mesmo o pior tipo de cego – aquele que se recusa a enxergar o que se passa sob o próprio nariz – é capaz de insistir que tudo não passa de um soluço que se resolverá com um ajustezinho aqui e um aumentozinho de impostos acolá. Nada disso: a crise é gravíssima. Ela foi construída, tijolo por tijolo, ao longo de anos e anos de gastança irresponsável do dinheiro público e não existe milagre capaz de colocar a casa em ordem de uma hora para outra. As montadoras de automóveis, por exemplo, vivem seu pior momento desde o distante ano de 1999 e já estão ficando sem fôlego para enfrentar o problema sem colocar funcionários no olho da rua.
[su_quote]A legião de trabalhadores que tem engrossado a cada mês a taxa de desocupados vive neste momento sob o guarda-chuva protetor do seguro-desemprego[/su_quote]
Motivada pela queda de 20% nas vendas de carros entre janeiro e maio na comparação com o mesmo período de 2014, a General Motors resolveu na sexta-feira colocar em férias coletivas os empregados de suas linhas de montagem. Isso quer dizer que dos 122 mil trabalhadores das montadoras (ou seja, a elite do operariado brasileiro), 43 mil passarão o mês de junho parados, em casa. À espera de um milagre cada vez mais improvável nesse momento de restrição de crédito e elevação de juros.
O tamanho do estrago
Este é o panorama do mercado brasileiro – e quem aguarda tempos frios na economia deve se preparar. Mas não só para os meses de inverno. Setembro está logo aí e, quando a primavera vier, a situação vai mudar. Para pior. Não! Não se trata de pessimismo nem de torcida para que a situação piore. São os fatos que se recusam a tingir o cenário de cor-de-rosa. A legião de trabalhadores que tem engrossado a cada mês a taxa de desocupados vive neste momento sob o guarda-chuva protetor do seguro-desemprego. Esse é o xis da questão: a partir de setembro, começa a se esgotar o prazo de seis meses de concessão do benefício e os milhares de brasileiros que perderam emprego na construção civil, no comércio e na indústria ficarão completamente sem sustento. Só então se terá uma noção mais clara do estrago que os últimos anos (sobretudo os últimos quatro) de criação de despesas sem preocupação com a receita causaram à economia.
O som das panelas
O pior é que, em Brasília, tudo continua sendo tratado como se a questão se reduzisse a um enfrentamento entre vencedores e perdedores das últimas eleições. Com um agravante: a bancada do governo tem agido como aqueles meninos malcriados – que choram e esperneiam para comer o doce antes da hora da sobremesa e quando a mãe os ameaça com castigo podem até fazer muxoxo, mas ficam quietinhos no canto da sala. Na frente das câmeras de TV, a tal base sempre fala grosso e ameaça se rebelar. Mas, na calada da noite, quando chega a hora da votação, o medo de ficar à míngua faz com que a turma vote tudo exatamente como o Planalto quer. A encenação dessa farsa deixa o eleitor cada dia mais confuso. Quanto ao governo, bem… ele tem pressa em aprovar o ajuste. Até porque ele sabe que a situação vai piorar e, quando entrar setembro, o som das panelas vai ecoar mais alto nas ruas do país.
Fonte: Hoje em Dia, 31/05/2015.
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