A política argentina está mostrando uma sistemática tendência a focar-se no passado. As críticas do presidente Nestor Kirchner, tanto aos meios de comunicação como à Igreja Católica, se centram no que se disse ou não se disse nos anos setenta; a relação com as Forças Armadas, com quase 1.000 processos abertos pelas violações aos direitos humanos três décadas atrás, se centram inevitavelmente nesta temática, e o “caso López” implica também a reaparição dos fantasmas da época supracitada. Nos últimos dias, as idas e vindas com o traslado do cadáver do ex-presidente Juan Domingo Perón também tem significado uma volta ao passado, como também o foi a traumática comemoração do 17 de outubro. Na semana passada, os incidentes violentos no Hospital Francês mostraram a utilização de pistoleiros e guarda-costas usando a violência com objetivos políticos, e os incidentes que tiveram lugar no ato do traslado dos restos mortais de Perón, com dezenas de feridos e uso de armas de fogo, significaram um “revival” dos enfrentamentos violentos que tiveram lugar dentro do peronismo nos primeiros anos da década de setenta. Seja pelas violações aos direitos humanos, ou pela violência desatada dentro do movimento peronista, ou por setores do mesmo, ao findar 2006 a política argentina se encontra dominada por significados e ações da década mais violenta que a Argentina viveu desde a Organização Nacional. Mas cerca de dois terços dos que votarão na eleição presidencial do próximo ano não estavam na idade de fazê-lo nas únicas duas eleições que tiveram lugar na década em questão, e que aconteceram em 1973. Para a maioria da população argentina, este retorno ao passado não tem a ver com suas urgências imediatas, que passam pelo desemprego e pela pobreza em primeiro lugar, a insegurança pública em segundo lugar, e a corrupção como propaganda permanente. A política gira sistematicamente em torno do passado enquanto os cidadãos enfrentam os problemas do presente. Esta fuga ao passado da política parece colocar em evidência a incapacidade ou falta de vontade para debater e resolver os problemas que integram a agenda do presente, e isto é algo sobre o qual a administração argentina deve refletir.
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