*Deborah Palma, administradora de empresas e especialista em educação financeira
A ciência não é um produto de decretos governamentais ou de planejamentos centrais; ela é, na sua essência, uma ordem espontânea do mercado que floresce exclusivamente em ambientes onde a liberdade de ação, de pensamento e o intercâmbio cosmopolita de ideias são respeitados. Quando a política externa compromete esses fundamentos, os custos recaem diretamente sobre a comunidade científica. O atual reposicionamento diplomático brasileiro, com aproximações a regimes como Venezuela, Cuba, Irã e Rússia, não é apenas simbólico: ele gera desconfiança, restringe redes de cooperação e dificulta o acesso a capitais e tecnologias estratégicas.
O Brasil é classificado pelo relatório V-Dem 2025 como um caso de “democratização em retorno” (U-Turn), tentando reverter retrocessos anteriores. Contudo, essa recuperação institucional interna entra em choque direto com uma política externa que busca legitimidade em blocos como o BRICS+, que agora abriga regimes onde a liberdade de discussão é ativamente censurada. O Brasil tenta “fortalecer a democracia internamente” enquanto estende o tapete vermelho para ditadores no exterior, gerando uma desconfiança que se reflete na redução de investimentos em pesquisa e desenvolvimento por parceiros ocidentais.
O apoio diplomático e financeiro a regimes como os da Venezuela, Nicarágua e Cuba tem sido um pilar da estratégia de inserção regional do Brasil nos últimos anos. A verdade é que essa política representa uma má alocação catastrófica de capital diplomático. Não é de hoje que a Venezuela e a Nicarágua se transformaram em zonas de instabilidade que não apenas instauram crises humanitárias, mas também desmantelam qualquer possibilidade de cooperação científica regional séria.
O caso da Venezuela é emblemático. O país, que já possuiu uma comunidade científica vibrante em áreas como geologia e medicina tropical, viu sua infraestrutura ser destruída pela ditadura socialista, pela hiperinflação e pelo controle estatal de preços. Ao flertar com ditaduras, o Brasil não apenas endossa um modelo econômico falido, mas também se vincula a um baixo potencial de produtividade.
A Nicarágua, por sua vez, exemplifica o risco do “princípio da não-intervenção” levado ao absurdo. O silêncio brasileiro diante da perseguição a acadêmicos nicaraguenses e do fechamento de universidades privadas por Ortega sinaliza para a comunidade internacional que o Brasil prioriza a soberania do governante sobre a liberdade do indivíduo. Por mais que não exista um indicador oficial que meça a “credibilidade” de um país, na prática, a relação entre o que um governo defende e como ele se posiciona, influencia a sua capacidade de liderança internacional. Nesse sentido, a postura brasileira pode ser malvista em organizações como a Organização dos Estados Americanos (OEA), por exemplo, principalmente em fóruns e debates sobre democracia e liberdade acadêmica.
A relação com Cuba na área da saúde, especificamente através do programa “Mais Médicos”, é frequentemente citada como um exemplo de sucesso. No entanto, uma análise baseada na teoria do capital humano revela uma realidade diferente. O modelo cubano de “exportação de serviços médicos” funciona como um subsídio estatal, em que o governo brasileiro paga por mão de obra técnica enquanto o Estado cubano retém a maior parte dos rendimentos, configurando o que críticos e agências internacionais classificam como trabalho forçado.
A aproximação com a República Islâmica do Irã representa um dos riscos mais significativos para a segurança tecnológica brasileira. Em 2024 e 2025, o Brasil aprofundou memorandos de entendimento com o Irã em nanotecnologia, biotecnologia e inteligência artificial. No papel, o Irã é uma potência emergente nessas áreas, ocupando posições de destaque na produção acadêmica. No entanto, a ciência iraniana está umbilicalmente ligada ao seu complexo militar e ao seu programa nuclear, ambos sob pesadas sanções internacionais.
A cooperação em “áreas estratégicas” com o Irã ativa imediatamente as cláusulas de exportação de tecnologias de uso dual (Dual-Use) dos Estados Unidos e da Europa. De acordo com os regulamentos do EAR (Export Administration Regulations) e do ITAR, qualquer instituição que compartilhe tecnologia sensível com entidades iranianas pode ser banida de acessar componentes americanos, softwares e redes de financiamento.
Internamente, a ciência brasileira sofre com um arcabouço filosófico que enfraquece a propriedade privada e a liberdade de expressão, o que afasta investidores e parceiros tecnológicos. A Constituição de 1988 estabelece que a propriedade deve cumprir uma “função social”, um conceito vago que permite intervenções estatais arbitrárias. Para a ciência e a inovação, isso é letal. Se uma empresa farmacêutica ou uma startup de biotecnologia não tem a garantia de que seus lucros e patentes serão respeitados, ela simplesmente não investe no Brasil. A mentalidade de “propriedade condicional” faz com que o Brasil seja visto como um ambiente hostil à inovação.
Ao se alinhar a ditaduras como a Venezuela, onde a expropriação de empresas foi usada como arma política para sustentar o regime, o Brasil reforça a percepção de que não possui um compromisso sério com o Estado de Direito. O investidor internacional olha para o Brasil e vê um país que defende regimes confiscatórios no exterior, temendo que a mesma lógica possa ser aplicada internamente via decisões judiciais ou decretos executivos.
O governo federal, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), tem promovido uma agenda de “ciência para todos” e anunciado medidas para reduzir as diferenças regionais. Em 2024, por exemplo, o ministério divulgou um pacote de aproximadamente R$ 3,1 bilhões, prevendo a destinação mínima de 30% dos recursos para instituições das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. No entanto, dados históricos de distribuição de bolsas e auxílios do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostram que a maior parte dos recursos continua concentrada em instituições do Sudeste e do Sul, onde se localizam os principais centros consolidados de pesquisa do país. Mesmo com mecanismos de compensação regional, a execução orçamentária evidencia que universidades e grupos já estabelecidos permanecem os principais beneficiários dos editais federais. Dessa maneira, os dados mostram que a prática continua a favorecer centros já estabelecidos e projetos alinhados às prioridades do governo. Esta concentração é um exemplo clássico do que Hayek chamou de “pretensão do conhecimento”: o Estado decide quais áreas da ciência merecem financiamento com base em metas geopolíticas ou industriais, em vez de permitir que a excelência científica e a demanda de mercado guiem a alocação de capital.
A polarização política no Brasil, alimentada tanto por pressões internas quanto pelo alinhamento externo com blocos contrários aos princípios ocidentais, ameaça a autonomia universitária. Quando a universidade se torna um campo de batalha ideológico para defender regimes estrangeiros ou para atacar o “imperialismo ocidental”, a busca pela verdade é a primeira vítima. Além disso, a proximidade diplomática com regimes que não toleram a dissidência, cria um ambiente onde a autocensura se torna comum. Professores e pesquisadores brasileiros podem hesitar em criticar certas políticas ou regimes por medo de retaliação institucional ou perda de acesso a verbas vinculadas a acordos bilaterais “estratégicos”.
Por fim, a ciência brasileira não pode ser uma ferramenta de propaganda para regimes autocráticos. Ela deve ser o motor da prosperidade de uma sociedade livre. Se o Brasil continuar a trilhar o caminho do alinhamento com as ditaduras, haverá o risco crescente de marginalização tecnológica, comprometendo a sua inserção nas cadeias globais de conhecimento e inovação e o empobrecimento intelectual de suas futuras gerações.