A experiência recente da Argentina sob o governo de Javier Milei tem despertado atenção internacional e intensificado o debate no Brasil. Após anos de desequilíbrio fiscal, inflação crônica e perda de credibilidade institucional, o país iniciou um amplo conjunto de reformas econômicas com foco na estabilização, na abertura de mercado e na redução do papel do Estado.
Passados pouco mais de dois anos desde o início dessas mudanças, os primeiros resultados começam a se tornar visíveis. Ainda que o cenário esteja longe de ser plenamente resolvido, os dados já permitem uma análise mais objetiva, especialmente relevante para um país como o Brasil, que enfrenta desafios estruturais semelhantes.
Sinais de recuperação econômica
Entre os indicadores mais relevantes, destaca-se o resultado do Produto Interno Bruto (PIB), que avançou cerca de 4,4% em 2025, quase o dobro do registrado no Brasil. Mais importante do que o número isolado, no entanto, é o contexto: a atividade econômica já supera os níveis observados antes do início do novo governo, revertendo a trajetória de queda anterior.
Outro dado expressivo é a expansão do consumo privado, que atingiu o maior nível da história do país. Esse resultado contraria projeções iniciais de que o ajuste fiscal levaria a uma contração prolongada da demanda.
A redução da pobreza também merece destaque. Após um aumento inicial, típico de processos de ajuste econômico, os índices recuaram de cerca de 41% para aproximadamente 31% ao longo de 2025, com projeções adicionais de queda.
No campo fiscal, a melhora foi significativa. A combinação de corte de gastos e reorganização das contas públicas permitiu não apenas a obtenção de superávits primários, mas também uma redução expressiva da dívida pública.
Abertura econômica e reconfiguração produtiva
Parte relevante desses resultados está associada à abertura econômica e à redução de barreiras à importação. Embora esse movimento tenha gerado impactos negativos de curto prazo em setores menos competitivos, também contribuiu para a queda de preços internos e para o aumento da eficiência produtiva.
As importações cresceram de forma significativa, especialmente em bens de capital e insumos produtivos, sinalizando um processo de modernização da economia. Ao mesmo tempo, as exportações avançaram quase 10% em 2025, impulsionadas por setores como energia e agropecuária.
Esse rearranjo reflete um princípio básico da economia: países tendem a se especializar naquilo em que são mais produtivos. No curto prazo, isso implica custos de transição; no longo prazo, tende a elevar o nível de produtividade e renda.
Investimento e crédito: efeitos em defasagem
Outro ponto relevante é a retomada gradual do mercado de crédito. Após anos de instabilidade, a intermediação financeira voltou a crescer, contribuindo para a recomposição das condições de financiamento e para a expansão de setores como construção civil e bens duráveis.
Adicionalmente, a implementação do Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI), sancionado em 2024, introduz um conjunto de benefícios fiscais, aduaneiros e cambiais de longo prazo voltados a projetos de grande porte. O regime busca ampliar a previsibilidade institucional, ao oferecer maior estabilidade jurídica, facilitar a repatriação de lucros e mitigar riscos associados a mudanças regulatórias, contribuindo para a atração de capital e a ampliação da carteira de investimentos no país. Nesse contexto, os projetos aprovados ou em análise já somam dezenas de bilhões de dólares, com impacto estimado na criação de aproximadamente 130 mil empregos.
Contudo, a materialização desses efeitos ocorre de forma defasada, em razão do tempo necessário para a maturação dos investimentos.
Esse fator ajuda a explicar a elevação marginal do desemprego no curto prazo, influenciada tanto por essa defasagem quanto pelo ajuste no setor público, que resultou na redução de mais de 60 mil postos de trabalho. Esse desalinhamento entre a melhora dos indicadores macroeconômicos e a dinâmica do mercado de trabalho é compatível com processos de ajuste estrutural. Reformas dessa natureza tendem a produzir efeitos mais significativos no médio e longo prazo.
Desafios persistentes
Apesar dos avanços, o cenário está longe de ser totalmente positivo. A inflação, embora muito inferior aos níveis anteriores, voltou a registrar alguma pressão recente, refletindo tanto fatores internos quanto o próprio processo de reativação do crédito. A abertura econômica pode resultar no fechamento de empresas menos competitivas, gerando efeitos de ajuste no curto prazo, particularmente no mercado de trabalho. A recomposição do emprego depende da capacidade da economia de absorver essa mão de obra em setores mais produtivos, um processo que demanda tempo.
Outro ponto importante é a necessidade de continuidade das reformas. Medidas como a reforma tributária e a consolidação de um novo marco regulatório permanecem essenciais para sustentar o crescimento no longo prazo.
A reforma trabalhista e o ambiente de negócios
Nesse contexto, a recente reforma trabalhista busca reduzir a insegurança jurídica e os custos de contratação. Entre as mudanças, destacam-se:
● maior previsibilidade em disputas judiciais;
● flexibilização de contratos e jornadas;
● revisão de incentivos que estimulavam litígios;
● fortalecimento da negociação entre empregador e empregado.
O objetivo central é reduzir barreiras à contratação formal, criando um ambiente mais favorável à geração de empregos ao longo do tempo.
Lições para o Brasil
A experiência argentina ainda está em curso, e seria precipitado tirar conclusões definitivas. Ainda assim, alguns pontos já oferecem reflexões relevantes para o debate brasileiro.
Reformas estruturais tendem a gerar custos no curto prazo, mas também a produzir ganhos relevantes quando acompanhadas de consistência fiscal e previsibilidade. Da mesma forma, a abertura econômica e a redução de distorções tendem a elevar a eficiência produtiva, ainda que impliquem ajustes setoriais.
O caso argentino reforça a importância de alinhar incentivos institucionais. Ambientes marcados por elevada incerteza, insegurança jurídica e intervenção estatal excessiva desestimulam investimento e crescimento.
O contraste com o Brasil reforça a urgência desse debate. Enquanto a Argentina optou por um processo de ajuste voltado à correção de desequilíbrios acumulados, aceitando custos de transição no curto prazo, mas já com sinais consistentes de melhoria em indicadores como crescimento econômico e redução da pobreza, o Brasil permanece ancorado em políticas de estímulo de curto prazo, com ênfase na expansão de gastos e transferências. Embora essa abordagem possa, em casos isolados, gerar algum alívio imediato, seus efeitos sobre produtividade e crescimento econômico se mostram prejudiciais no longo prazo. O resultado é a persistência de um desempenho modesto, inferior ao de economias comparáveis, e a dificuldade em romper um ciclo de baixa produtividade. Mais do que uma diferença de resultados, trata-se de uma diferença de horizonte: entre políticas que internalizam custos no presente para viabilizar ganhos futuros, e estratégias que, ao postergar ajustes, tendem a perpetuar um padrão de crescimento limitado.
*Catharina Donato é libertária, engenheira da computação e articulista. É vice-presidente da JL-SP, presidente da corrente libertária da JL nacional e integrante do LOLA. Produz conteúdo sobre libertarianismo e economia política no canal do YouTube Iluminando a Escuridão e é fundadora do movimento IAE.