*Victor Alberti de Carvalho
Vivemos numa época em que quase toda infração moral vem acompanhada de uma justificativa nobre. Mente-se “pela democracia”. Manipula-se “pelo bem maior”. Viola-se regras “porque a causa é justa”. O problema, porém, raramente está na intenção declarada, está na facilidade com que criamos exceções para nós mesmos; como Kant alerta em sua obra Crítica da razão prática.
Mas essa leitura simplifica demais o problema. O que Kant realmente combate não é o discernimento moral diante de situações complexas, dilemas morais. O que ele combate é algo mais perigoso: a transformação de exceções em privilégios subjetivos.
Para Kant, uma regra é moral quando pode valer universalmente sem depender de objetivos egoístas. O teste não é se ela produz bons resultados imediatos, mas se poderia ser adotada por todos sem destruir a própria confiança social que torna a convivência possível. Quando alguém decide mentir porque “neste caso é diferente”, está reivindicando para si um privilégio que não poderia ser generalizado.
E é exatamente essa lógica que corrói o debate público contemporâneo. Hoje, a mentira política raramente se apresenta como mentira. Ela surge como estratégia necessária. Como proteção contra um mal maior. Como defesa de um grupo. O problema é que, se cada grupo autoriza suas próprias exceções morais, o resultado não é justiça, mas a desintegração da confiança coletiva. Sem a expectativa de que regras valham para todos, não há liberdade possível. Há apenas disputa de narrativas e poder.
A ética kantiana, longe de ser um formalismo inflexível, é um alerta contra a autoindulgência moral. Ela nos lembra que a integridade não começa nas grandes decisões históricas, mas na recusa cotidiana de manipular princípios em benefício próprio.
No fundo o dilema permanente é o da política e da cultura: até que ponto estamos dispostos a distorcer princípios quando eles nos atrapalham?
O problema não é Kant. O problema é a nossa disposição constante de criar exceções para nós mesmos; e chamar isso de virtude.
Há algo profundamente enraizado na cultura brasileira que raramente é discutido com a seriedade necessária e que reflete os nossos princípios políticos: a naturalização das pequenas exceções. O “jeitinho” é frequentemente visto como criatividade social. Na prática, ele é a institucionalização da regra que não vale para todos, o jeito da política brasileira é anti-kantino.
O imperativo categórico afirma, em termos simples, que só devemos agir segundo princípios que possam valer universalmente. Não se trata de rigidez cega, mas de coerência. Se uma ação só é aceitável quando eu a pratico, mas se tornaria problemática se todos a praticassem, ou seja, uma ação antissocial, então ela não é moralmente justificável. Esse jeito político-brasileiro opera exatamente na lógica inversa. Ele parte da suposição de que a regra geral é válida; exceto no meu caso. Seja para evitar impostos, obter favores, contornar burocracias ou arranjar “cabide de emprego” para amigos, a exceção individual é sempre apresentada como pequena demais para causar dano. Mas quando essa lógica se universaliza, o resultado é previsível: erosão da confiança, fragilidade institucional e descrença na igualdade perante a lei.
Sociedades livres não se sustentam apenas com boas leis. Elas dependem de cidadãos dispostos a agir como se as regras valessem também quando ninguém está olhando. A liberdade econômica, a segurança jurídica e o respeito aos contratos pressupõem um mínimo de universalização moral.
Kant compreendeu isso com clareza. A moralidade não começa na fiscalização externa, mas na disposição interna de não reivindicar privilégios particulares. O imperativo categórico, portanto, não é uma abstração distante. Ele é um antídoto contra a cultura da exceção permanente.
Em conclusão, se quisermos instituições mais fortes e um ambiente mais livre, talvez seja necessário começar por algo simples e exigente: agir como se as regras valessem também para nós.