*Lorena Mendes
Por muito tempo, a história de Dorian Gray foi lida como um alerta moral sobre vaidade, aparência e decadência. Mas talvez sua metáfora mais potente seja outra: a separação entre o que se vê e o que realmente existe.
Dorian permanece jovem, belo e admirado. Seu retrato – escondido – envelhece, se deforma e acumula as consequências de suas escolhas.
Essa dissociação entre aparência e realidade não é apenas literária. No Brasil, ela se manifesta com clareza no sistema tributário – especialmente para mulheres empreendedoras.
O sucesso que aparece… e o custo que não aparece
Hoje, vemos um número crescente de mulheres abrindo negócios, liderando empresas e construindo independência financeira. Nas redes sociais, isso aparece como liberdade, flexibilidade e realização pessoal. Mas, assim como no caso de Dorian, existe um “retrato escondido”.
Esse retrato é o sistema tributário brasileiro: complexo, instável e, muitas vezes, desproporcional. Ele não aparece na vitrine do empreendedorismo, mas determina silenciosamente o sucesso ou fracasso de muitos negócios.
Para mulheres – que frequentemente empreendem sozinhas, conciliam múltiplas jornadas e operam com margens menores – esse retrato pesa ainda mais.
A ilusão da simplicidade
O discurso comum diz: “abra um CNPJ, escolha o Simples Nacional e pronto”. Na prática, não é tão simples.
O enquadramento tributário pode significar diferenças enormes de carga fiscal. Uma escolha equivocada pode consumir lucros, inviabilizar crescimento ou gerar passivos inesperados.
Como no romance de Wilde, o problema não está na aparência – mas no acúmulo silencioso de consequências.
Dorian ignora o retrato até que ele se torna irreversível. Muitas empreendedoras fazem o mesmo com a tributação: deixam para olhar depois, quando o custo já se materializou.
O preço de ignorar a realidade
Na obra, o retrato é descrito como “o emblema visível da consciência” . No mundo dos negócios, o sistema tributário cumpre função semelhante: ele revela – cedo ou tarde – as decisões que foram tomadas.
Ignorar planejamento tributário não elimina o problema. Apenas o transfere para o futuro. E, assim como no livro, quanto mais tempo se posterga o enfrentamento, mais difícil é corrigir.
Mulheres empreendedoras e o peso invisível
Há um fator adicional importante: o ambiente institucional brasileiro já é desafiador por si só. Para mulheres, esse cenário se torna ainda mais complexo, pois se soma a obstáculos como menor acesso a crédito, maior carga de trabalho doméstico, redes de apoio empresarial mais limitadas e, muitas vezes, uma maior aversão ao risco financeiro – fatores que, combinados, tornam o empreendedorismo uma jornada mais exigente.
Nesse contexto, a tributação deixa de ser apenas uma obrigação técnica e passa a ser um fator decisivo de sobrevivência. Não se trata apenas de pagar impostos – mas de entender como pagá-los de forma estratégica.
Transparência contra ilusão
O grande erro de Dorian Gray não foi desejar permanecer jovem. Foi acreditar que poderia dissociar a aparência da realidade indefinidamente.
No empreendedorismo, o erro equivalente é acreditar que faturamento é lucro – e que crescimento dispensa estrutura.
A boa gestão tributária não é um detalhe burocrático. É parte essencial da liberdade econômica.
Um novo retrato
Se há uma lição que podemos extrair da obra de Oscar Wilde, é a importância de olhar para o “retrato” antes que seja tarde.
Para mulheres empreendedoras, isso significa encarar a tributação desde o início como parte estratégica do negócio: compreender o regime tributário adequado, revisar periodicamente a estrutura fiscal, tratar os tributos não como um custo inevitável, mas como variável de gestão, e buscar informação e apoio técnico qualificado para tomar decisões mais seguras e sustentáveis.
No fim, a diferença entre um negócio sustentável e um negócio inviável pode não estar na ideia, no esforço ou no talento – mas naquilo que não aparece.
Assim como no romance, o que está escondido é, muitas vezes, o que mais importa.
Lorena Mendes é estudante de Direito, com atuação no movimento liberal desde 2022, experiência em instituições jurídicas de Minas Gerais e produção regular de artigos em veículos e revistas acadêmicas nacionais e internacionais.