*Ana Carolina Kulzer
Existe uma disputa decisiva em curso no Brasil, e ela não começa nas urnas, mas muito antes delas. Trata-se da corrida pela juventude. Em um cenário de transformação acelerada, a Geração Z deixou de ser apenas uma promessa demográfica e passou a ocupar o centro da estratégia política. Não por acaso, cresce o incentivo para que jovens tirem o título de eleitor. Mais do que ampliar a participação, esse movimento revela algo mais profundo: a compreensão de que conquistar o engajamento dos jovens hoje é, em grande medida, definir quem terá legitimidade para conduzir o país amanhã.
Segundo pesquisa da AtlasIntel, esse protagonismo não é apenas quantitativo, mas também qualitativo. A Geração Z, formada por jovens nascidos entre 1995 e 2010, já se destaca como o grupo com maior identificação com a direita no Brasil: 52% se declaram alinhados a esse espectro, enquanto 31% se identificam com a esquerda, 5% com o centro e 12% afirmam não possuir uma ideologia definida. O dado não apenas desafia leituras tradicionais sobre o comportamento político dos jovens, como também ajuda a explicar por que a disputa por esse público se intensificou.
Durante muito tempo, predominou a ideia de que a juventude tenderia naturalmente a visões mais progressistas. Hoje, essa leitura já não explica a realidade com a mesma precisão. A nova geração cresceu em um ambiente marcado pela descentralização da informação, pela influência das redes sociais e por uma relação mais crítica com instituições tradicionais. Ao mesmo tempo, enfrentou instabilidade econômica, insegurança quanto ao futuro e um mercado de trabalho cada vez mais exigente.
Nesse contexto, não surpreende que discursos que valorizam autonomia, liberdade individual, protagonismo e redução de barreiras ganhem espaço entre os jovens. Há uma busca evidente por caminhos que ofereçam independência e previsibilidade em um ambiente percebido como incerto. Isso não significa que pautas relacionadas à inclusão ou à justiça social tenham desaparecido, mas sim que passaram a ser interpretadas sob novas lentes.
A consequência direta desse cenário é o aumento da disputa por atenção, identificação e engajamento. A política deixa de ser apenas institucional e passa a ser também cultural. Ela se manifesta nas redes sociais, na linguagem utilizada, nas referências simbólicas e na capacidade de dialogar com valores contemporâneos. Não se trata apenas de convencer, trata-se de se conectar.
Incentivar jovens a tirar o título de eleitor, portanto, é apenas a face mais visível de uma estratégia mais ampla. O verdadeiro objetivo é participar da formação de consciência política de uma geração inteira. E essa disputa não se resolve em um único ciclo eleitoral, ela molda o horizonte político de longo prazo.
No fim, a corrida pela juventude não é apenas uma estratégia eleitoral, é um teste sobre a capacidade da política brasileira de se reinventar. Não basta mobilizar jovens para que votem; é preciso criar um ambiente em que eles queiram participar, influenciar e construir. Isso exige mais do que campanhas: exige instituições mais abertas, debates mais honestos e um compromisso real com oportunidades.
Se a Geração Z já começa a redesenhar o mapa ideológico do país, ignorar esse movimento não é apenas um erro tático, é uma miopia estratégica. O futuro político do Brasil não será decidido apenas por quem fala mais alto, mas por quem consegue dialogar melhor com uma geração que valoriza autonomia, coerência e perspectiva de crescimento.
Porque, no fim das contas, a frase que dá título a este debate não é retórica, é diagnóstico: quem conquistar os jovens governará o futuro.
Ana Carolina Kulzer é diretora de Comunicação do Instituto Atlantis e Coordenadora do Students for Liberty Brasil