*Vinicius Bubols
O projeto de lei que reconhece o estágio como experiência profissional foi vetado pelo presidente da República sob a justificativa de que à natureza do estágio deve ser, sobretudo, de caráter pedagógico. O fato político, aponta para uma discussão relevante que diz respeito à necessidade da criação de pontes concretas entre a educação e o mercado de trabalho como conhecemos hoje.
Segundo dados de desocupação disponibilizados pelo IBGE no quarto trimestre de 2025, é possível perceber um recorte de 19,9% entre os jovens de 14 a 17 anos. Ainda, quando ampliamos a faixa de 18 a 24 anos, encontramos uma taxa de 11,4% – que a título de comparação é mais que o dobro da média nacional. Embora esses números revelem o contexto desafiador e a primeira barreira de entrada desse jovem no mercado de trabalho, é importante refletir sobre o motivo pelo qual esses futuros profissionais não conseguem se inserir nesse contexto. Como mostra a pesquisa realizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, divulgada no primeiro semestre de 2025, pelo menos 77% das indústrias paulistas tiveram dificuldade para contratar novos funcionários, sendo que 61% destas empresas relataram dificuldade justamente com a faixa etária de 21 a 30 anos. Além disso, os principais pontos apontados foram a falta de qualificação técnica (64,5%) e a pouca experiência dos candidatos (44,2%). Desse modo, observamos um paradoxo: jovens passam mais tempo estudando, mas seguem chegando ao mercado sem experiência prática suficiente para gerar o valor econômico esperado.
Uma das leituras possíveis para esse cenário é justamente a desconexão do ensino acadêmico ao dia a dia encontrado pelos trabalhadores em suas jornadas laborais. O mercado, como conhecemos, opera sob uma lógica de produtividade, melhoria de processos e resolução de problemas, levando em conta o objetivo central de transformar ideias em valor, produtividade e serviços de qualidade. A universidade, por outro lado, trabalha com aspectos teóricos, que quando não exercitados de forma direcionada, acabam dificultando sua adaptação ao ambiente profissional. Esse desencontro ajuda a explicar por que empresas relatam dificuldade em contratar jovens, mesmo em um contexto de crescente escolarização formal. O estágio, nesse sentido, torna-se o elo fundamental capaz de unir o conhecimento adquirido e proporcionar o ambiente para formação do indivíduo, não apenas em aspectos profissionais, mas também no desenvolvimento da responsabilidade e da autonomia individual.
A atuação de estagiário, para além do que prevê a legislação vigente, é momento propício para o desenvolvimento de competências valiosas como comunicação, postura profissional, responsabilidade e adaptação organizacional. O Nobel em Economia, Friedrich Hayek, apontou que o conhecimento é disperso e construído nos espaços de convivência social, o que demonstra a importância de instrumentos capazes de gerar experiências verdadeiras ao jovem, que torna-se mais produtivo à medida que pratica, erra, adapta-se e melhora. Para tanto, é importante que o ente estatal não opere na lógica de tutela, mas como um facilitador para a entrada do jovem no mercado de trabalho da forma mais natural possível.
O debate sobre o reconhecimento do estágio como experiência de trabalho levanta mais do que um método simples de ingresso no mercado de trabalho – ele reflete a visão de futuro que projetamos para os futuros trabalhadores brasileiros. Em um mercado que busca experiência no momento da contratação, é fundamental buscar instrumentos que reconheçam o estágio como ponte entre estudo e trabalho. Para alcançarmos o caminho da prosperidade, é necessário valorizar não apenas a busca pelo conhecimento, mas a transformação desse conhecimento em capacidade de construir a própria prosperidade e, por consequência, o desenvolvimento de toda uma sociedade.
Vinicius Bubols é estudante de Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), atual voluntário do Students for Liberty Brasil e ex-presidente do Instituto Atlantos. Trabalha como Headhunter na Hanagá, consultoria em Recrutamento e Seleção Especializada, onde conecta talentos a empresas diariamente.