*Samuel Campovilla
Essa talvez seja a pergunta mais importante por trás da inteligência artificial. Não apenas quem poderá usá-la, mas quem poderá experimentar com ela, errar com ela, construir sobre ela e capturar seus ganhos antes que o restante da sociedade perceba seu valor. A especulação produtiva vende uma hipótese. A fraude vende uma certeza falsa.
Essa distinção importa porque a palavra “especulação” costuma ser usada como acusação moral, como se toda aposta sobre o futuro fosse ganância improdutiva. Mas especular, em seu sentido mais interessante, é tentar precificar uma possibilidade antes que ela se torne evidente. É assumir risco diante da incerteza.
O progresso raramente nasce com aparência respeitável. Ferrovias e internet misturaram euforia, capital mal alocado e descoberta real antes de se tornarem infraestrutura. A lição não é que toda bolha seja boa. A lição é que, muitas vezes, o futuro é financiado antes de parecer racional.
É aqui que o liberalismo econômico oferece sua melhor leitura. Não como adoração do lucro, mas como uma hipótese sobre conhecimento: em uma economia complexa, ninguém sabe antecipadamente onde estará o valor. Ele é descoberto por agentes diferentes, errando e acertando com o próprio capital.
Mercados não acertam sempre. Mas permitem que muitos testem hipóteses sem depender de uma autorização central para imaginar o amanhã.
A inteligência artificial radicaliza essa discussão porque muda o objeto da especulação. No passado, especulava-se sobre terra, fábricas, imóveis, petróleo, ações ou infraestrutura física. Hoje, especula-se também sobre modelos, dados, chips, nuvem e capacidade de inferência.
Nesse contexto, uso “tokenização” não no sentido de ativos financeiros em blockchain, mas como metáfora econômica apoiada em um fato técnico: modelos de linguagem processam texto em tokens, e muitas APIs cobram por esse consumo. O token não contém inteligência. Mas mede o consumo de uma infraestrutura que promete entregá-la sob demanda.
Essa é a novidade. Não estamos precificando conhecimento pela primeira vez; professores, consultores, advogados e programadores sempre venderam conhecimento. A diferença é que parte da capacidade cognitiva agora pode ser consumida de forma granular, automatizada e escalável.
O usuário que paga tokens para resumir um documento não está necessariamente especulando; está usando uma ferramenta. Quem especula são investidores, empresas, profissionais e empreendedores que apostam que esse consumo de inferência será uma das bases da próxima economia.
A promessa liberal da IA é reduzir barreiras de entrada: permitir que agentes pequenos acessem capacidades antes restritas a grandes organizações. Mas essa promessa carrega uma contradição imediata. Para descentralizar capacidade, a IA depende de uma infraestrutura altamente concentrada.
O Stanford AI Index 2026 aponta que os Estados Unidos hospedam 5.427 data centers, mais de dez vezes o número de qualquer outro país, e que uma única empresa, a TSMC, fabrica quase todos os chips líderes de IA. A economia dos tokens pode parecer imaterial na tela, mas nasce de semicondutores, energia, nuvem, data centers e cadeias produtivas raras. A escassez começa antes do token: começa no chip capaz de produzi-lo em escala.
As restrições de exportação dos Estados Unidos sobre chips avançados tornam isso ainda mais explícito. Em 2023, o Bureau of Industry and Security atualizou controles sobre computação avançada, supercomputação e equipamentos de semicondutores; em 2026, o próprio BIS passou a analisar caso a caso exportações à China de semicondutores como Nvidia H200 e AMD MI325X.
Ou seja: acesso à IA de ponta já não é apenas decisão empresarial. É questão geopolítica.
Isso cria uma tensão que o liberalismo precisa enfrentar com honestidade. Se o futuro deve ser descoberto por experimentação descentralizada, o que acontece quando poucos países e empresas controlam o combustível dessa experimentação?
Há ainda uma objeção incômoda: talvez essa concentração não seja um desvio do mercado, mas parte da própria estrutura do setor. A indústria de semicondutores não nasceu de um mercado puro e espontâneo. Ela foi moldada por política industrial, compras públicas, subsídios, proteção estratégica e décadas de coordenação geopolítica. Fingir que tudo isso é apenas fruto de concorrência livre seria intelectualmente desonesto.
Mas essa objeção não destrói o argumento liberal. Ela o obriga a amadurecer. O liberalismo econômico não precisa negar que o Estado teve papel na formação de infraestruturas críticas. Precisa insistir que essas infraestruturas não se transformem em feudos permanentes.
Também seria ingênuo dizer que toda concentração é ilegítima. Em setores de capital extremo, alguma escala pode ser necessária. Em tecnologias sensíveis, alguma restrição pode ser defensável por segurança. Nem toda abertura imediata é virtude; nem todo controle é abuso.
O problema começa quando eficiência e segurança deixam de ser limites prudenciais e passam a funcionar como justificativas permanentes para bloquear concorrência.
A pergunta, portanto, não é se houve política industrial. Houve. A pergunta é se ela ampliará a capacidade de novos agentes competirem ou se congelará privilégios em nome da soberania, da segurança ou da inovação. Essa diferença é decisiva.
Política pública que expande capacidade produtiva, reduz gargalos e aumenta o número de competidores pode fortalecer a liberdade econômica. Política pública que protege campeões nacionais, fecha mercados e subsidia incumbentes apenas troca concorrência por renda política.
O mesmo vale para as empresas. Uma coisa é uma companhia lucrar porque inovou, assumiu risco e entregou valor. Outra é transformar infraestrutura em pedágio obrigatório para que todos os outros possam inovar depois dela.
Por isso, um liberalismo sério não deve defender inovação de forma abstrata. Deve defender contestabilidade: a possibilidade real de novos entrantes desafiarem os antigos.
E aqui o problema vai além dos chips. Mesmo que houvesse mais concorrência em hardware, a concentração poderia reaparecer em dados proprietários, capital para treinamento, distribuição, contratos de nuvem, integração com sistemas operacionais e acesso ao usuário final. A economia da inteligência não terá um único gargalo. Terá vários.
É por isso que a especulação tecnológica só é socialmente útil quando mais gente pode participar dela.
Se apenas os grandes acessam as melhores ferramentas, apenas eles podem errar na fronteira. Se apenas os incumbentes conseguem pagar pelo aprendizado, o futuro deixa de ser descoberto por concorrência e passa a ser administrado por poucos.
E se o preço da inferência permanece alto demais, os tokens deixam de ser instrumentos de democratização e viram nova barreira de entrada.
O verdadeiro inimigo da inovação não é o fracasso. Fracasso faz parte da descoberta. O inimigo é um sistema em que apenas poucos podem fracassar com acesso às melhores ferramentas.
Defender especulação tecnológica, portanto, não é defender qualquer euforia de mercado. É defender a liberdade de testar hipóteses sobre o futuro. Sua utilidade social não está em enriquecer quem acerta, mas em financiar experimentos que uma sociedade excessivamente prudente talvez nunca começasse.
Mas liberdade para especular não é liberdade para enganar. Liberdade para inovar não é direito adquirido a monopólio. Liberdade econômica não é submissão passiva a qualquer empresa ou Estado que se apresente como dono do futuro.
Talvez o consumo mensurável de inferência (hoje frequentemente cobrado em tokens) seja uma das unidades centrais da próxima economia. Talvez o modelo comercial mude. Talvez o custo caia. Talvez modelos locais e abertos reduzam parte da concentração. A incerteza faz parte do ponto.
O que parece menos incerto é que a capacidade de produzir linguagem, código, análise e decisão assistida virou infraestrutura econômica.
E toda infraestrutura importante levanta a mesma pergunta política: ela multiplicará agentes ou consolidará donos? A pergunta não é se haverá especulação tecnológica. Haverá. A pergunta é se ela será aberta o bastante para financiar descobertas ou fechada o bastante para transformar o futuro em propriedade de poucos. Essa escolha não pertence ao futuro. Ela já começou.
Samuel Campovilla é estudante de Engenharia de Software pela PUC-Campinas, CEO e desenvolvedor da OpenPol, iniciativa de tecnologia cívica voltada à organização, tratamento e apresentação de dados públicos. Sua atuação envolve arquitetura de sistemas, modelagem de dados, construção de APIs e desenvolvimento de soluções digitais.