*Yan Chagas
Considerando as últimas décadas, é altamente improvável que um ser humano inserido na sociedade não tenha ouvido falar de direita e esquerda. Desde seu surgimento, até hoje, gerou problemas incalculáveis para a ciência política e para ações estratégicas ao longo da história. É o caso do artigo “Direita e esquerda: Perspectivas Para a Liberdade” escrito por Murray Rothbard; como libertário, acho válido a crítica e correção de noções errôneas, mesmo aos pais das ideias que defendo.
O objetivo central de Rothbard nesse artigo é traçar uma divisão clara entre esquerda e direita; quem seriam os aliados dos libertários; e o motivo pelo qual todos eles estavam errados nos anos 60 em se aliar aos conservadores contra os comunistas. Para isso, Rothbard destina a esquerda para a revolução e a direita para a contrarrevolução, colocando vários outros elementos soltos dentro de ambos. Nessa distinção, ele põe os liberais antes do conhecido “Fin de Siècle” e os libertários como os mais radicais. Para ele o socialismo variava entre esquerda, centro ou direita; na direita estava o conservadorismo, juntamente do fascismo, nazismo, imperialismo etc.
Portanto, Murray conclui que Lenin era um aliado mais amigável ao libertarianismo que Karl Marx, devido às suas tendências conservadoras de eliminar o capitalismo, enquanto Lenin, com sua NEP (Nova Política Econômica), queria somente acabar com o monopolismo e o imperialismo. Ele também conclui que o comunismo é um movimento revolucionário genuíno, enquanto o conservadorismo é péssimo em todas as suas facetas, sendo a pior delas a fascista, que era vista como protótipo na economia Americana logo antes da Primeira Guerra, até o New Deal.
Perceberam que a partir de esquematizações gerais em moldes errôneos, foi possível confundir completamente a análise e colocar ideias absolutamente contraditórias como estando às vezes do mesmo lado? É um problema que não surge primeiro da nomenclatura, mas do painel de como vai organizá-las. Direita e esquerda, indo para uma visão mais conceitual e matemática, são regidas pela lateralidade; posições relativas que dependem sempre de quem observa ou do objeto analisado. Se você muda de direção, os lados mudam.
Se a pretensão é ter uma análise categórica para servir de base para uma estratégia, ou conhecer verdadeiramente as ideologias e como elas se organizam, diagramas como o “Political Compass” e o diagrama de Nolan vão te deixar largos passos atras de quem faz a análise não por posição, mas por objetivos, meios, modos, vias, quem, como e onde; ou seja, análise dos discursos para a ação política.
Começo por “o que seria ideologia?” e, felizmente, o escritor responsável por definir o fascismo como ideologia para a língua portuguesa, João F. D. Eigen, nos poupa de refazer essa visitação. No livro “Fascismo como ideologia e a revolta totalitária” na terceira parte, no quarto capítulo chamado “Fascismo como ideologia” p360 – p383, o autor destrincha os problemas acerca do nome “Ideologia” e como afetou a definição de fascismo. A pejorativização, o relativismo e a
falta de limites embutidos no termo ideologia fizeram um atraso metodológico na correta categorização de fenômenos ideológicos reais.
Os elementos que João Eigen traz como “recognitors”, ou seja, instrumentos para determinar o que era ideologia, participam perfeitamente da teoria dos 4 discursos de Aristóteles, analisada por Olavo L. P de Carvalho, mesmo não abordando a ideologia em si. A ideologia é, portanto, o resultado da organização entre os discursos retóricos, deliberativo, apodítico e forense, possuindo como objeto de discurso a política.
Assim, a ideologia política trataria de persuadir alguém quanto a acusar ou defender uma ação política, determinando a justiça ou injustiça de um ato ou ação passada, bem como elogiar ou censurar tal ação no presente e, por fim, aconselhar ou dissuadir sobre uma ação que deve ser tomada no futuro. O que supera isso não é mais ideologia, e sim discurso dialético que é direcionado para a estratégia política, e, o que antecede a isso, é discurso poético, direcionado para a estética.
Tendo o significado de política em Aristóteles como pressuposto, é possível dizer que todas as ideologias políticas têm a pretensão de gerar a melhoria da sociedade, porém o meio para isso é altamente divergente e dissonante. As ideologias políticas, surgidas após o iluminismo, terão 3 visões de o que gera a melhoria da sociedade: uma é a liberdade individual, outra é a igualdade de poder e a última é a fraternidade cultural. Elas são divergentes entre si e auto excludentes pela sua própria natureza. Logo, a única reconciliação possível entre elas é equilibrar 2 ou 3 dessas visões e, ao fazer isso, não está comprometida com nenhuma delas especialmente — isso é determinado pelo alinhamento ou compromisso de objetivos.
Os alinhamentos de objetivos permitem ver o quanto uma ideologia crê naquela visão para a melhoria da sociedade: as visões delimitam espectro, as ideologias dizem o que fazer; mas e quanto à coerção? A função da coerção para implementar a ideologia está no eixo da necessidade ou desnecessidade do Estado, que existe em gradações por todo o espectro político. Quando tomadas absolutamente, usurpa-se o papel das visões. O meio em si, para se implementar, torna- se o próprio objetivo como pretensão de melhorar a sociedade, o qual seria o totalitarismo e o libertarianismo absoluto. Enquanto um crê no Estado como totalmente necessário em todos os âmbitos sociais, o outro acredita que, não só toda coerção é antiética, mas também toda influência em qualquer meio social, seja na economia, na cultura, na língua ou na agricultura são rejeitadas como tão malignas quanto um tiro advindo de um oficial da KBG.
As alas ideológicas mostram um aspecto psicológico das ideologias; umas são mais crédulas na ação humana e outras mais céticas. Dentre elas, as pró-liberdade individual, adotadas pelo capitalismo, possuem a ala liberal e a ala conservadora; as pró-igualdade de poder, adotadas pelo socialismo, possuem a ala revolucionária e a ala reformista; as pró-fraternidade cultural, por fim, adotadas pelo nacionalismo, possuem a ala modernista e a ala tradicionalista.
Organizando todos os elementos em um arranjo, temos uma esfera; latitudes com níveis de coerção e longitudes de alas ideológicas, eixos de visões, que podemos chamar de “Espectro Ideológico Global”. Portanto, ele torna a ciência política livre do relativismo, da pejorativização, da confusão mental e da lateralidade da direita, esquerda e seu avesso.
Yan Souza Chagas, 19 anos, Diretor de Formação Política, Diretor de Formação do SFLB MG, Diretor do Instituto Lux e Jovem Talento do Instituto Millenium.