*Wesley Dorly
Existe no Brasil uma relação estranha com a riqueza. O empresário bem-sucedido frequentemente não é visto como alguém que gerou valor, assumiu riscos e construiu patrimônio, mas como alguém que necessariamente tomou algo de outra pessoa. A lógica parece simples: se alguém tem muito, alguém necessariamente ficou com menos. O problema é que essa visão parte de uma premissa equivocada. A economia não é um jogo de soma zero.
Dizer que uma pessoa rica necessariamente empobreceu outra seria semelhante a afirmar que pessoas gordas são responsáveis pela fome porque, se uma pessoa come muito, outra necessariamente teria de comer menos. A produção econômica, entretanto, não funciona dessa maneira. Riqueza pode ser criada. Uma empresa pode criar algo que antes não existia, oferecer um serviço que melhora a vida das pessoas, gerar empregos, investir, assumir riscos e ter lucro.
Existe uma espécie de desconfiança moral em relação à riqueza. Heranças são frequentemente tratadas como algo a diminuir o esforço alheio, como se uma fortuna só pudesse ser legítima quando acompanhada de sofrimento. Parece existir a ideia de que o sofrimento confere dignidade, enquanto o conforto desperta suspeita. Buscar uma vida melhor, uma casa melhor, um carro melhor ou simplesmente mais tranquilidade financeira muitas vezes é interpretado como arrogância ou como uma tentativa de se colocar acima dos demais.
Também é curioso o argumento de que todos os bilionários seriam simplesmente herdeiros. Mesmo quando uma fortuna passa posteriormente para os descendentes, em algum momento alguém precisou construir aquele patrimônio. A riqueza não surgiu do nada. Alguém, em algum momento, começou uma empresa, trabalhou, investiu, assumiu riscos e acumulou capital. Ignorar essa trajetória é transformar a existência da fortuna em uma espécie de fenômeno inexplicável.
Essa desconfiança também aparece na maneira como pequenos empresários são tratados. Existe uma tendência de imaginar que todo empregador é um grande milionário, quando grande parte dos empregadores são pequenas empresas. Não é incomum que um empreendimento simples seja reduzido de forma depreciativa à expressão “quiosque”, como se possuir um pequeno negócio fosse algo insignificante ou motivo de piada.
Outro erro comum é imaginar que todo o faturamento de uma empresa vai diretamente para o bolso do proprietário. Faturamento não é lucro. Antes de existir
lucro, existem salários, impostos, aluguel, fornecedores, energia, manutenções, etc. Confundir faturamento com dinheiro disponível para o empresário gastar revela uma compreensão bastante limitada de como uma empresa funciona.
A reação à riqueza também é seletiva. Um jogador de futebol ou um cantor pode exibir carros, casas, viagens e outros bens sem necessariamente provocar a mesma indignação. Existe até uma narrativa de superação que torna essa riqueza socialmente mais aceitável quando ela vem acompanhada de uma história de pobreza anterior. A riqueza parece ser tolerada quando existe uma narrativa de sofrimento capaz de justificá-la.
Com o empresário, a reação comumente é diferente. Basta alguém exibir um carro ou uma casa para surgirem questionamentos sobre o salário de seus funcionários, como se a aquisição daquele patrimônio significasse automaticamente que alguma
coisa foi retirada deles. Pouco se discute, nesse contexto, sobre produtividade, especialização, qualificação profissional e oferta e demanda no mercado de trabalho.
Se uma pessoa deseja receber mais, uma das formas sustentáveis de fazê-lo é aumentar o valor que consegue produzir. Isso pode ocorrer por meio de especialização, qualificação ou pela mudança para setores nos quais sua produtividade seja maior.
Existe também uma confusão entre esforço e produtividade. Trabalhar muitas horas e terminar o dia exausto não significa necessariamente produzir muito valor. Uma economia mais rica não depende apenas de pessoas trabalhando mais, mas de pessoas produzindo melhor. O trabalhador que desenvolve competências escassas e úteis tende a possuir maior poder de negociação do que aquele que permanece fazendo exatamente a mesma coisa durante anos e que pode ser facilmente substituído a qualquer momento.
É nesse ponto que surge outra característica da mentalidade econômica brasileira: a expectativa de enriquecimento sem compreender a relação entre risco e retorno. Muitos sonham com uma grande fortuna por meio de loterias, jogos de azar ou até mesmo pela descoberta acidental de alguma pedra valiosa no quintal. O problema não está em sonhar, mas em transformar acontecimentos extraordinários em estratégia realista de vida.
Buscar conforto por meio do trabalho, da qualificação, do empreendedorismo e do investimento pode ser encarado como frescura ou como desejo de parecer melhor. A prosperidade individual acaba sendo vista com desconfiança, enquanto a mediocridade pode ser tratada como uma condição quase inevitável.
Essa mentalidade se manifesta também na política. Existe uma esperança recorrente de que um presidente consiga resolver praticamente todos os problemas da vida cotidiana: reduzir o preço da gasolina, acabar com o desemprego, diminuir a desigualdade, melhorar a educação e a segurança, baratear produtos e aumentar salários. A prosperidade passa a ser imaginada como algo que depende fundamentalmente de uma mudança no comando do Governo.
Essa expectativa cria uma dependência perigosa. Quando uma sociedade acredita que sua melhora material depende principalmente da ação de um governante, ela se acomoda, esperando que o governo resolva tudo por ela, deixando de perceber que grande parte da prosperidade nasce de decisões e sacrifícios individuais. A política pode criar condições melhores ou piores para esse processo, mas não consegue substituir completamente a iniciativa alheia.
O papel mais importante do governo, portanto, deve ser justamente não atrapalhar aquilo que a sociedade é capaz de construir. Segurança jurídica, regras previsíveis, respeito à propriedade, liberdade econômica e um ambiente no qual empreender seja possível são condições muito mais importantes para a prosperidade do que a promessa de um governante capaz de resolver tudo.
A meritocracia é frequentemente rejeitada antes mesmo de ser compreendida. É verdade que mérito não explica absolutamente tudo na vida. Existem inúmeras circunstâncias que influenciam as oportunidades de cada pessoa. Mas isso não significa que esforço, competência, disciplina e produtividade sejam completamente irrelevantes.
A ideia de que salário mínimo corresponde a esforço mínimo também revela uma expectativa equivocada. Ninguém começa uma carreira recebendo dezenas de milhares de reais simplesmente por começar a trabalhar. Remuneração elevada normalmente está relacionada à capacidade de produzir valor, à escassez de determinadas competências, à responsabilidade assumida e à demanda existente por aquele trabalho.
Se um empresário precisa escolher entre dois funcionários, é razoável imaginar que aquele que demonstra maior dedicação, competência e capacidade de produzir resultados terá mais oportunidades de crescimento. Afinal, quem administraria uma empresa premiando quem não entrega bons resultados? Um deles irá subir na carreira e outro estará condenado à mediocridade, em posições que pagam mal.
A baixa compreensão econômica alimenta falsas soluções, como tabelar preços, imprimir dinheiro ou forçar aumentos salariais sem produtividade. Para avançar, o Brasil precisa abandonar a ideia de que a riqueza alheia é uma ofensa e passar a enxergar o sucesso e fortuna como algo a ser alcançado, não punido.