Luísa Rajão
O crédito surgiu da necessidade de realizar trocas antes que o dinheiro estivesse disponível. Desde o início, porém, tomar crédito era uma decisão claramente percebida como dívida. A própria palavra vem do latim creditum, que significa “confiar” ou “ter fé”, indicando que não era apenas uma troca de recursos, mas também uma troca de confiança entre os envolvidos na operação.
Na Mesopotâmia de 3000 a.C., o crédito estava longe de ser uma ferramenta de consumo. Era, muitas vezes, uma questão de sobrevivência. Camponeses recorriam aos templos para pegar grãos ou sementes quando secas ameaçavam a colheita, registrando a dívida em tábuas de argila. O risco era alto: quem não pagasse podia perder terras e até mesmo, a própria liberdade.
Por isso, durante muito tempo, recorrer ao crédito era exceção, não rotina. Hoje acontece quase o contrário. Com a tecnologia e o acesso cada vez mais fácil ao consumo, o crédito deixa de ser momentâneo e passa a fazer parte das decisões comuns do dia a dia, sendo incorporado à própria experiência de compra.
Financiar, parcelar compras ou sustentar um padrão de vida no cartão deixou de ser exceção e virou rotina. Essas práticas já parecem menos uma forma de se endividar e mais uma forma normal de comprar. Chamar isso apenas de consumismo simplifica o problema. A própria linguagem do crédito altera nossa percepção: “limite disponível” parece dinheiro próprio, mesmo sendo apenas capacidade de contrair dívida. Essa ilusão cobra um preço alto no Brasil, onde o rotativo ultrapassa 400% ao ano, a inadimplência supera 50% e mais de 70 milhões de brasileiros estão negativados. Porém, isso não torna todo crédito ruim. Um produtor que financia uma máquina mais produtiva, por exemplo, pode usar a dívida para aumentar sua renda futura.
Quando a dívida passa a parecer apenas uma forma de pagamento, ela também começa a financiar coisas que antes talvez exigissem espera. Um celular acima da renda, um carro que não cabe no orçamento ou um padrão de vida sustentado no cartão não aumenta a capacidade futura de quem compra, e nesse caso, o crédito deixa de ajudar o indivíduo a produzir mais e passa a ajudá-lo a parecer ter mais.
Dessa forma, a grande mudança talvez tenha sido outra: a dívida passou a parecer cada vez menos com dívida. “Limite disponível”, “12x sem juros” e “crédito pré-aprovado” fazem com que ela pareça apenas mais uma etapa da compra. O consumidor não sente que tomou dinheiro emprestado, mas apenas que comprou.
Os números ajudam a mostrar o que acontece quando o crédito se normaliza. Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, já chamou atenção para uma contradição interessante: o crédito cresce, mas a inadimplência acompanha. O consignado privado ajuda a mostrar isso. Em pouco tempo, o volume saiu de R$ 41 bilhões para R$ 102 bilhões, um salto de 145%, enquanto os atrasos também aumentaram. E esse fenômeno não é apenas brasileiro. Nas economias acompanhadas pelo BIS, o crédito ao setor não financeiro já passa de duas vezes o PIB.
O ciclo fica mais grave quando novas dívidas passam a ser usadas para pagar as anteriores. Primeiro vem o limite do cartão, depois o empréstimo para cobrir a própria fatura. Quando o banco já não empresta, entram os pedidos à família, aos amigos e, em situações mais extremas, ao crédito informal e à agiotagem. Nesse ponto, o problema já não está só na fatura: começa a atingir relações familiares, confiança e decisões do dia a dia.
Por trás disso existe uma lógica simples. Irving Fisher já mostrava que nossas escolhas não dependem só da renda de hoje, mas também da renda que esperamos ter amanhã. Quando a renda de hoje não basta, o crédito traz parte da renda de amanhã para o presente. Você ganha poder de compra hoje, mas, na prática, uma parte do salário futuro já chega com destino definido. Cerca de 82% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, e quase 30% da renda doméstica vai para juros e amortizações, de acordo com dados do Banco Central do Brasil. O problema não é consumir hoje o que uma pessoa ganharia amanhã. É chegar ao amanhã com cada vez menos escolhas disponíveis.
Dito isso, talvez o maior risco não esteja apenas no tamanho da dívida, mas no fato de termos parado de percebê-la como dívida. Quando comprometer renda futura parece apenas uma forma de pagamento, “esperar” começa a parecer desnecessário. E, talvez, esse seja o verdadeiro paradoxo de uma geração que nunca teve tanto acesso: pela primeira vez, não precisamos esperar para ter quase nada, mas podemos estar perdendo, justamente por isso, a capacidade de esperar.
Luísa Rajão é graduanda em Ciências Econômicas no IBMEC BH e atua na Inter Asset, com experiência em wealth management, investor relations e gestão de carteiras.