*Heron Nery
Antes que esfriasse o corpo daqueles que foram assistir o confronto eleitoral de domingo esperando reflexões políticas, o horário eleitoral de Flávio Bolsonaro já reprisava ostrechos do debate e anunciava ao país o vencedor. Era ele mesmo. Em Juazeiro, na mesma semana, a militância de Lula entoava em coro uma frase nascida naquele ringue, ou estúdio: “Abre o sigilo, Flávio”. Enquanto os dois ainda falavam na Band, “Flávio miliciano” já passava de meio milhão de buscas no Google. O programa durou duas horas e o resto dele circulará até domingo, em pedaços.
Os comentaristas, dentre eles o povo, foram quase unânimes em concordar ter sido umdebate de “baixo nível”, “nenhuma proposta”, “só ataques pessoais”; quem perdeu, disseram, foi o eleitor. É o lamento de toda eleição, quase sempre acompanhado de saudade de um tempo em que se debatia “de verdade”, tal como os escolásticos. Mas, ora, não podemos entender por que o debate eleitoral anda “tão ruim” se não entendemos o que é um debate – ou melhor, para que diabos ele existe.
Comecemos pela saudade, que é a parte fácil. Em 1858, e longe daqui, Lincoln e Douglas se enfrentavam em rodadas de horas: um falava sessenta minutos, o outro respondia por noventa, o primeiro voltava por mais trinta. Neil Postman admirava aquele público capaz de tanta oratória, mas era o mesmo público que gritava e zombava no auditório em um clima de Maracanã. Em 1989, já aqui, segundo o próprio Boni, tiraram a gravata de Collor, simularam suor com glicerina e o puseram diante de pastas vazias que fingiam guardar denúncias contra Lula. No dia seguinte, o Jornal Nacional editou o debate com o melhor de um e o pior do outro. Era a época dos “cortes analógicos”.
Dizem que o debate serve para convencer o eleitor indeciso – o que seria interessante, vez que numa disputa empatada quem decide é o eleitor do meio.
Uma pena que ele encolheu. Na pesquisa Quaest de 14 de outubro, 91% disseram que seu voto está tomado e “não muda”, indecisos são 1%. A rejeição dos dois beira a metade do país. Esse eleitor residual, além disso, raramente assiste a duas horas de programa – está “de saco cheio disso”; prefere receber a briga recortada por WhatsApp. Ganha o político que fizer esse pouco-eleitor rejeitar o outro um pouco mais. Persuadir, em 2026, é aumentar a rejeição alheia, e só acusações surtem esse efeito – eleição não é espaço para afeto.
Aristóteles, um pouco mais antigo que o 13 e o 22, ensinava que a retórica, tem três gêneros. O ‘deliberativo’, dizia ele, discute o futuro e o que convém fazer com o mundo. O‘epidítico’ distribui louvor e censura. O ‘judicial’, por sua vez, julga o passado, a história do que ocorreu, entre as partes. Na Band, quase tudo foi judicial, e os procuradores se dirigiam à corte dos telespectadores para comprovar quem roubou, quem deixou morrer na pandemia e o que restou foi epidítico, para eleger quem é digno de governar e quem é bandido.
Um debate sobre o passado não tem como ser propositivo.
Mas o eleitor também está no banco dos réus. Claro que quem define o gênero do discurso não é o orador, é o ouvinte. Se ele se senta como membro da assembleia, julga o futuro; se como jurado, julga o passado; se como espectador, aprecia o talento do orador. O candidato apenas discursa para a cadeira que encontra.
Fato é que a cadeira está ocupada há oito anos. Fato é que essa eleição é uma melhor de três: 2018, 2022, 2026. Fato que os eleitores só querem saber quem teve razão desde que um foi preso e o outro, eleito. O povo percebeu isso muito antes dos analistas e sentou-se como jurado de um processo histórico. Esse jurado pede veredito. Sérgio Buarque já nos chamou de cordiais, gente que decide com o coração – lembrando que o coração também odeia.
O público é cúmplice da pobreza do espetáculo. Ele entende perfeitamente o que está em julgamento e aceita qualquer prova. Quem já traz o veredito vai ao debate como quem vai ao paiol, buscar munição para o outro debate – aquele que começa na segunda-feira, no almoço de família e no grupo de WhatsApp. É nesse “debate do debate” que a eleição se decide, e nele só circula o corte. A função da TV é abastecer as mãos digitais dos eleitores.
O corte é uma prova testemunhal desse grande julgamento, que não dá espaço para a argumentação pública. Os candidatos sabem bem disso e precisam falar em frases capazes de sobreviver à amputação. Eis a nova modalidade sintática: sujeito, verbo, ofensa. Foi um jogo duro, em que o mesmo duelo encontrou dois vencedores, um para cada torcida. Ninguém diz “portanto” num debate, foi-se a era das conjunções. Foram tão econômicos que ficaram pobres. O “debate do debate”, então, não encontrou peso algum para pesar, e por isso o eleitor saiu de mãos abanando.
O cúmplice está nu. Os candidatos ofereceram o que o eleitor compartilha, e o eleitor compartilha o que já trazia de casa. Cada corte que viraliza ensina às campanhas como deve ser o próximo confronto. Não é verdade, portanto, que o eleitor saiu perdendo no domingo. Levou para casa exatamente o que foi buscar. O debate ficou pobre porque ficou útil a cada um de nós.
Fato é que Lula já condicionou o debate de sexta à abertura do sigilo de Flávio, porque, disse ele, “presidente não pode debater com ladrão”. A frase rende mais corte do que renderia o programa inteiro, e talvez por isso tenha sido dita. Nada falhou no domingo. O debate cumpriu à perfeição a função que lhe demos. Fizemos dele uma corte, e de toda corte esperamos apenas a sentença, de preferência em trinta segundos, pronta para encaminhar.
Heron Santos Nery é graduando em Direito pela Universidade de Brasília, Diretor Jurídico da Federação das Ligas Financeiras de Brasília, além de pesquisador e bolsista do Instituto Escafandristas na área de Direito Tributário.