*Letícia Porto Moreto
Anos eleitorais impõem uma lógica específica sobre economias emergentes que retrata a incerteza sobre a continuidade de políticas econômicas, eleva o custo do risco e inibe decisões de investimento de médio e longo prazo. Empresas adiam expansões, tesoureiros corporativos encurtam prazos de aplicação, e agentes financeiros reprecificam ativos em função de cenários que ainda não se materializaram. Em 2026, o Brasil entrará nesse ciclo em contexto, isso ocorre devido a alta sensibilidade das decisões políticas em relação a economia do país.
O conceito de prêmio de risco é central para compreender esse fenômeno. Trata-se do excesso de retorno que um investidor exige para aceitar a incerteza associada a um ativo ou país. O Credit Default Swap (CDS) soberano brasileiro — instrumento financeiro que mede o custo de proteção contra calote da dívida pública — tende a se ampliar em períodos eleitorais, refletindo a percepção de risco aumentado. A curva de juros futuros se inclina, ou seja, os contratos de prazo mais longo embutem prêmios crescentes, o que eleva o custo de financiamento público e privado. As expectativas inflacionárias captadas pelo relatório Focus, do Banco Central do Brasil, também mostram histórico de queda nos períodos de maior incerteza política.
A história brasileira oferece episódios ilustrativos. Em 2002, a possibilidade de vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais desencadeou crise cambial e fuga de capitais, com o dólar ultrapassando R$ 4,00. Em 2014, a combinação de queda fiscal e incerteza eleitoral precedeu a perda do grau de investimento pelas agências de rating. Em 2018 e 2022, a volatilidade cambial e a re-precificação de ativos foram observadas em diferentes graus de intensidade, sempre refletindo dúvidas sobre o compromisso fiscal dos candidatos. Segundo dados do Banco Central, o câmbio depreciou mais de 15% entre janeiro e outubro de 2022, período de máxima incerteza eleitoral.
Economias emergentes são estruturalmente mais vulneráveis a esse tipo de choque porque dependem de capital externo para financiar seus déficits. Segundo relatórios do FMI sobre ciclos eleitorais em mercados emergentes, países com maior dependência de financiamento externo, menor grau de diversificação produtiva e histórico de instabilidade monetária sofrem spillovers mais severos quando o ambiente político se deteriora.
O remédio para a volatilidade eleitoral não é sobre ideologias ou polarização, e sim a busca por independencia do Estado. Países que constroem credibilidade fiscal ao longo do tempo e menor intervenção de mercado tendem a sofrer menores oscilações em seus ativos durante ciclos eleitorais, independentemente de quem vence. O arcabouço fiscal, o regime de metas de inflação e as reformas estruturais em curso funcionam como âncoras que atenuam os prêmios de risco. O questionamento não é quem vence a eleição, mas qual compromisso será mantido no dia seguinte.