Se em 1994, logo após o lançamento do Plano Real, o frango e o iogurte despontaram como símbolos do novo padrão de consumo do brasileiro, hoje o principal objetivo de quem vai às compras é manter as conquistas destes últimos 20 anos, diante do crescimento da inflação. É o que revelam recentes pesquisas realizadas pela Nielsen e pelo Kantar Word Panel, dois dos maiores institutos de análise de comportamento do consumidor do país.
— O consumidor não quer abrir mão. O que conseguiu colocar no carrinho nesses 20 anos, ele não quer deixar de comprar. Está usando estratégias para compensar a alta dos preços: leva quantidades menores, muda de marca, corta nos produtos mais básicos, vai menos vezes aos supermercados para evitar as compras picadinhas, seleciona o melhor canal de compra, ou seja, o que vale a pena comprar nos hipermercados, no atacado ou na internet — explica Christine Pereira, diretora comercial da Kantar World Panel.
O estudo “Entendendo o comportamento e evolução do consumidor brasileiro”, coordenada por Christine identificou nove classes de produtos que só entraram na cesta de compras das famílias brasileiros nos últimos anos, ou seja, passaram a ser compradas por 70% das famílias pelo menos uma vez ao ano. São eles: creme de leite, extrato de tomate, molho de tomate, cereal tradicional, tempero, absorvente higiênico, leite em pó, cremes e loções e maionese.
São itens diferentes das categorias consolidadas (sabonete, sabão em barra, papel higiênico, creme dental) comprados por 90% das famílias e dos ainda considerados sonhos de consumo — sucos prontos para beber, comidas congeladas, leite aromatizado, requeijão — que ainda não chegam a casa da maior parte dos brasileiros nem uma vez por ano.
— Quando chega o fantasma da inflação, as pessoas controlam para não andar pra trás. Se já tinha conseguido colocar no carrinho duas vezes por ano, quando o preço aumenta coloca uma. Se comprava todo mês, passa a comprar a cada 45 dias — detalha a analista.
Já a pesquisa “Mudanças no mercado brasileiro em 2014”, realizada pela Nielsen, mostra que a cesta do consumo do brasileiro, que mais que dobrou de tamanho desde 1994, teve agora sua primeira retração em dez anos. Culpa da perda de força do emprego e da renda, do crédito e dos programas de proteção social.
— Esses fatores sustentaram um crescimento forte do consumo desde do início do Plano Real, mas agora dão sinais de fraqueza. Com os preços subindo, o consumidor começa a criar alternativas para não deixar de comprar o que comprava antes: gasta menos comendo fora de casa, procura descontos, passa a fazer compras de mês, escolhe embalagens menores, leva as marcas mais baratas. Faz toda uma ginástica e, só por último, opta por não comprar novos produtos que incluiu na cesta como o sabão líquido, a bebida à base de soja — diz Aline Sena, analista de mercado da Nielsen.
A mais recente pesquisa de intenção de compras dos brasileiros, realizada pela Fecomércio-RJ no fim de abril, mostra que televisão, celular, computador, geladeira, fogão e automóvel são os produtos mais frequentes na lista de desejos.
— Nossa série histórica vem mostrando uma intenção de compra de televisão, fogão, geladeira, carro e uma disputa no quinto lugar entre o smartphone e o computador e suas variações. A grande mudança do Plano Real foi que o aumento do crédito e a possibilidade de comprar em 12 vezes no cartão viabilizaram a aquisição de bens duráveis durante todo ano. Antes, esses itens eram mais vendidos no fim do ano por causa do décimo terceiro salário e no Dias das Mães. A estabilidade e o crédito tirou a força dessa sazonalidade — diz Christian Travassos, economista da Fecomércio-RJ.
Nas análises da Nielsen, ao lado da inflação, o endividamento das famílias é outro grande responsável pelas dificuldades do brasileiro para manter seu padrão de compras. Os números mostram que hoje a classe média do país está gastando 15% mais do que ganha. Significa dizer que, para uma renda familiar média de R$ 2.924, há gastos de R$ 3.116. Boa parte desse endividamento resulta de financiamentos de longo prazo tomados para comprar a casa própria e o carro zero, itens apontados pelos especialistas como sonhos que consumo que se tornaram possíveis a uma parcela bem maior da população por causa da estabilidade trazido pelo real.
Os números confirmam. Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos (Anfavea) atestam que o patamar de vendas de carros novos mais que dobrou nesses 20 anos. Em 1994 foi 1,127 milhão de unidades e, ano passado, o número chegou a 2,76 milhões. O mercado imobiliário exibe dados ainda mais impressionantes. De R$ 1,7 bilhão destinado ao financiamento da casa própria em 1994, a cifra pulou para nada menos do que R$ 109,2 bilhões no ano passado, segundo a Associação Brasileira de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
— O Plano Real foi um divisor de águas no mercado imobiliário, porque a inflação baixa e sob controle é um dos pilares para o crescimento do setor. Os outros são o desemprego baixo, o apetite dos bancos em conceder o crédito e um arcabouço jurídico seguro e tudo isso existe hoje no Brasil. A casa própria sempre foi o maior sonho de consumo do brasileiro e se tornou mais tangível a partir de 1994. E continua sendo um grande sonho, porque o país ainda tem um déficit habitacional de 7 milhões de unidades e mesmo quem já tem seu imóvel, quer trocar por um melhor — diz Octavio de Lazari Júnior, presidente da Abecip.
Fonte: O Globo.
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