Patrícia Carlos de Andrade & Eduardo Viola Passados 15 anos, teremos a exata noção das forças que ocasionaram a queda do Muro de Berlim? O que levou aquelas pessoas, por décadas limitadas pelo medo do estado totalitário, a aceitar correr o risco? Elas ouviram, do outro lado, um novo discurso: “Lutem por sua liberdade, pois a estabilidade de suas elites não nos interessa mais.” Com Thatcher e Reagan, o Reino Unido e os EUA compreenderam que a acomodação com o comunismo ameaçava os fundamentos da sua civilização, combinando, assim, a maximização do interesse nacional, com a promoção da democracia como valor universal. Na América Latina, os formadores de opinião, além de ridicularizar, tinham pânico de Reagan, que levaria o mundo à destruição. E o que aconteceu efetivamente? A destruição do totalitarismo comunista e a democratização de vastas áreas do mundo. Para nossos intelectuais, o discurso pela liberdade de Reagan era hipócrita e mentiroso. Diante de seu inegável sucesso, tal percepção foi mitigada, sem que se reconhecesse consistentemente o apelo da liberdade. Se não entendemos tamanha revolução, como podemos pretender opinar sobre as imensas transformações que vêm ocorrendo no Oriente Médio? Alguém que se informa por meio da imprensa brasileira pensa que a estratégia americana é focada em apropriar-se do petróleo e em minar a soberania de povos que lutam por afirmar sua identidade. Há também a justificação do terrorismo: é resposta dos pobres à exploração pelos países desenvolvidos. Além disso, como com Reagan, há uma caricaturização de Bush, em relação a quem estamos na fase inicial do julgamento – sua estratégia é uma farsa hipócrita. Virá mais uma vez o relutante reconhecimento das virtudes dessa política, sem chegarmos à sua compreensão. O 11/9 mudou, mais uma vez, a postura americana, agora diante do terrorismo e da estabilidade dos regimes autoritário-totalitários do Oriente Médio. O terrorismo deixou de ser questão criminal a ser combatida judicialmente, para ser tratado como ameaça devastadora, a ser combatida por meio da guerra. Da aliança com regimes autoritários, passou-se para a compreensão de que o status quo é caldo de cultivo da ameaça terrorista. A promoção da liberdade tomou o lugar da estabilidade. Este neo-wilsonianismo é ponto central da filosofia dos neo-conservadores, tão mal compreendidos e ridicularizados na América Latina. Nos últimos dois meses tem havido fortes processos democratizantes no Oriente Médio: eleição de nova autoridade palestina, disposta a separar-se do terrorismo; afluência de 60% do eleitorado no Iraque, correndo alto risco de morte; a acolhida do discurso de promoção da liberdade de Bush, em sua posse, pela juventude iraniana; a contestação da ocupação Síria no Líbano, depois do assassinato do ex-primeiro-ministro; no Egito, a rendição de Mubarak à estratégia americana e a proposta de realização de eleições livres. Por que a imprensa brasileira tem uma visão contrastante com os fatos? Há três razões principais: 1. Reduz o comportamento americano à maximização do seu interesse nacional imediato, ignorando a papel fundamental da liberdade e do indivíduo na construção de sua civilização. 2. Tende a responsabilizar países desenvolvidos pelos problemas dos países pobres e emergentes, identificando-se com a cultura árabe. O mal está fora e se há fracasso, é responsabilidade do outro. Compra, assim, a explicação tradicional das elites autoritárias árabes – não prosperam por culpa do Ocidente. 3. Subdimensiona o apelo universal da idéia da liberdade, mesmo nas condições mais desfavoráveis: sociedades com tradições autoritárias enraizadas, ou em que a implantação de regimes totalitários aniquilou a liberdade, como o Oriente Médio. Os jornalistas brasileiros não cumprem satisfatoriamente a sua missão. Na cobertura internacional, pelo menos, faltam objetividade diante dos fatos, isenção com a civilização americana, compreensão do liberalismo e do apelo profundo da liberdade em cada indivíduo em qualquer sociedade. Deveríamos nos perguntar: na defesa do que é melhor para uma sociedade, seja a nossa, seja a do Iraque, é mais importante afirmar valores relativos como a identidade cultural nacional, ou valores individuais universais como a liberdade?
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