Relatório da ONU sobre os crimes cometidos pela Coreia do Norte não surtirá muito efeito. Estamos vivendo na “era pós-intervenção”
Esta semana, a ONU divulgou um relatório revelando os crimes cometidos pelo governo norte-coreano contra sua própria população. Ao longo das quase 400 páginas, são relatados casos chocantes de privação de alimentos, tortura, trabalho forçado e execução. Segundo o órgão, as práticas são similares as dos nazistas.
É possível que os autores do relatório tivessem o mesmo objetivo dos jornalistas que, no início dos anos 1990, denunciavam as atrocidades cometidas na Guerra dos Balcãs. Naquela época, acreditava-se que se todos os horrores daquela guerra fossem revelados, o mundo exigiria uma ação.
O líder do relatório, Michael Kirby, demonstrou otimismo. “Agora todos sabem. Não haverá uma desculpa para deixar de agir por falta de conhecimento dos fatos. O sofrimento da população norte-coreana exige uma ação”, disse Kirby.
Porém, nos dias atuais, isso é bem improvável de acontecer. Mesmo se a Coreia do Norte for levada à Corte Penal Internacional, o veto da China no Conselho de Segurança da ONU manterá o país a salvo de uma intervenção. Principal aliada do governo norte-coreano, a China também contribui para as atrocidades do país, enviando de volta todos os norte-coreanos que tentam fugir pela fronteira entre os dois países.
Uma história bem parecida acontece com a Síria. Há menos de um mês, um relatório feito pelo governo do Qatar acusou Bashar Assad de promover uma matança em “escala industrial”. O documento também detalhava as atrocidades cometidas e vinha acompanhado de fotos. Mesmo assim, nada foi feito. Talvez porque todos soubessem que a tentativa de intervir seria barrada por um veto da Rússia, principal aliada de Assad e membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.
Estamos vivendo na “era pós-intervenção”, onde ninguém exige uma ação por saber que nada irá acontecer. A controversa ação no Iraque e no Afeganistão também contribuiu para acabar com a crença na intervenção internacional.
É uma ótima época para ser um ditador ou torturador a serviço de um regime brutal. O mundo permitirá seguir com a matança sem tomar qualquer atitude, mesmo sabendo o que está acontecendo.
Fonte: Opinião & Notícia (The Guardian)
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