*Antonio Vladika
Em economia, o tempo cobra juros. A política que tenta comprar o presente com recursos do futuro apenas troca o nome da dívida: ora ela aparece no Orçamento, ora nos preços, ora nos juros, ora na moeda enfraquecida. O Relatório Focus de 15 de maio de 2026 condensa esse processo em números severos: IPCA projetado em 4,92% para 2026, Selic esperada em 13,25% ao ano, crescimento do PIB em 1,85%, dívida líquida do setor público em 69,90% do PIB, déficit primário de 0,50% e resultado nominal negativo de 8,50% do PIB. A fotografia estatística revela uma economia obrigada a pagar a conta de uma política orientada pela próxima urna.
O governo Lula governa com preferência temporal elevada. A expressão parece técnica, mas descreve uma conduta simples: sacrificar poupança, investimento, estabilidade e confiança para obter dividendos imediatos de popularidade. Em democracias massificadas, o governante temporário administra um patrimônio que não lhe pertence integralmente e que não transmitirá aos seus herdeiros políticos com responsabilidade proprietária. Seu incentivo natural é extrair prestígio no mandato, distribuir benefícios visíveis, esconder custos difusos e empurrar a fatura para contribuintes futuros. O calendário eleitoral converte-se, assim, em taxa de desconto moral.
Daí a coerência interna do lulismo econômico. Renúncias, subsídios, crédito direcionado, bancos públicos mobilizados, programas de renegociação, estímulos habitacionais e benefícios setoriais formam uma arquitetura de curto prazo. O custo estimado das medidas populistas já alcança R$ 140 bilhões, segundo levantamento recente, com tendência de expansão em ano de disputa presidencial. Cada anúncio produz uma imagem de amparo. Cada imagem cobra seu preço em deterioração fiscal, pressão inflacionária, prêmio de risco e encarecimento do capital.
A inflação projetada pela décima semana seguida não surgiu como acidente meteorológico. Choques externos existem e afetam preços, mas apenas encontram terreno fértil quando a política doméstica já enfraqueceu a disciplina fiscal e contaminou expectativas. O governo Lula tenta apresentar inflação, juros e baixo crescimento como fenômenos separados. A economia, porém, trabalha por encadeamentos. Déficit aumenta a necessidade de financiamento; financiamento caro pressiona a dívida; dívida crescente reduz confiança; confiança menor exige juros maiores; juros maiores asfixiam investimento; investimento menor reduz crescimento; crescimento fraco alimenta novas promessas de gasto. O círculo não precisa de conspiração. Precisa apenas de incentivos ruins.
O ponto central é moral antes de ser contábil. Toda “bondade” estatal possui pagador. Quando o governo oferece crédito barato, alguém arca com o risco. Quando subsidia energia, habitação ou consumo, alguém absorve a diferença. Quando promete aliviar o presente sem cortar despesas, tributa, endivida ou desvaloriza a moeda. A generosidade política funciona como liturgia de apropriação indireta: o governante distribui virtude pública com riqueza privada, depois apresenta a própria intermediação como compaixão.
Essa mecânica também altera comportamentos. O cidadão aprende a aguardar o programa; o endividado aprende a esperar nova renegociação; o empresário aprende a buscar favores regulatórios ou financeiros; o setor organizado aprende a pressionar pelo próximo benefício. O mercado, que deveria coordenar preços, risco, poupança e investimento, passa a competir com o balcão estatal. O resultado é uma sociedade menos produtiva, mais dependente, mais litigiosa e mais vulnerável ao discurso salvacionista.
A política econômica de Lula converte a pobreza em ativo eleitoral. Um trabalhador com moeda forte, emprego privado robusto, crédito saudável e renda real ascendente torna-se menos dependente da tutela oficial. Um trabalhador pressionado por alimento caro, aluguel caro, juros altos e endividamento crônico torna-se público-alvo de programas que prometem devolver frações daquilo que a própria política destruiu. A máquina cria a ferida e vende o curativo.
O Focus, nesse sentido, não é apenas relatório de mercado. É ata fria de uma preferência temporal degenerada. Ele registra o preço de um governo que escolhe popularidade presente contra estabilidade futura. O Brasil produtivo precisa de poupança, previsibilidade, moeda confiável, respeito ao cálculo econômico e limite ao apetite estatal. O governo Lula oferece espetáculo distributivo, expansão parafiscal e dependência administrada. A conta virá como sempre vem: menos investimento, mais juros, menos liberdade econômica, mais captura política e uma população obrigada a financiar, com perda de poder de compra, a campanha permanente do poder.