As atitudes do governo Lula face ao comércio exterior brasileiro têm se pautado por duas limitações, uma de compreensão e outra de atitude. A primeira consiste na incapacidade de enxergar as verdadeiras vantagens comparativas do país, o que se traduz em preconceito contra o setor agropecuário (identificado com atraso e subdesenvolvimento) e endeusamento do setor industrial (identificado com modernidade e progresso). A segunda limitação consiste na incapacidade de apresentar propostas críveis nas negociações comerciais em curso, nas quais o Brasil exige o máximo de abertura de outros mercados sem oferecer qualquer abertura relevante em contrapartida. A evidência empírica disponível mostra que as maiores vantagens comparativas do país estão no setor agropecuário. Calculando o índice de Vantagem Comparativa Revelada (VCR, criado pelo economista húngaro Bela Balassa em 1965) de cada setor da economia brasileira, descobre-se que a agropecuária tem um índice positivo de 7,22, enquanto o setor de equipamentos de informática tem um índice negativo de 3,01. Esses números, porém, contrastam com o tratamento que o governo vem conferindo a cada um desses setores em termos de política comercial. Em estudo publicado em 2003 (”Abertura e crescimento no Brasil: deu errado?”), o economista Maurício Mesquita Moreira, do Banco Mundial, calculou a proteção comercial efetiva de cada setor da economia brasileira (a proteção efetiva é a proteção nominal de um bem ponderada pela proteção dos insumos utilizados na sua fabricação). Descobriu então que, na média, a proteção efetiva dos bens agrícolas é negativa em 4,8%, enquanto a proteção efetiva dos insumos utilizados na agricultura (máquinas e equipamentos diversos, como tratores) é positiva, variando entre 12% e 60%. O resultado disso é que os insumos agrícolas fabricados no país ficam mais caros (pois a proteção confere aos fabricantes ampla margem para cobrar preços superiores aos dos concorrentes importados) e esse rent (que é como os economistas chamam o lucro auferido a partir de benesses estatais e não a partir do mérito) é pago, naturalmente, pelo produtor agrícola. Promove-se, assim, uma incoerente transferência de renda dos setores mais eficientes para os setores menos competitivos. Essa transferência de renda, por sua vez, é acompanhada por uma transferência de investimentos: afinal, se o governo está tirando do campo e dando para a cidade, torna-se vantajoso fechar a fazenda e montar uma fábrica.
Leia também
Como o brasileiro vê o empresário e a riqueza
23/09/2026
*Wesley Dorly Existe no Brasil uma relação estranha com a riqueza. O empresário bem-sucedido frequentemente não é visto como alguém que gerou...
A riqueza invisível: elites cognitivas, capital humano e o novo desafio ao pensamento liberal
17/09/2026
A 57ª edição do Millenium Papers traz o artigo “A riqueza invisível: elites cognitivas, capital humano e o novo desafio ao pensamento...
Direita, esquerda e seu avesso: Confusões de Murray Rothbard e outros intelectuais
16/09/2026
*Yan Chagas Considerando as últimas décadas, é altamente improvável que um ser humano inserido na sociedade não tenha ouvido falar de...
A efígie sem rosto
09/09/2026
*Heron Santos Nery Certa vez os fariseus testaram Jesus sobre o tributo. Ele pediu a moeda e perguntou de quem eram a efígie e a inscrição ali...
Sem Comentários! Seja o primeiro.